No meu último artigo realçava a importância histórica do Partido Socialista Europeu (PES) ter decidido apresentar um candidato único ao cargo de Presidente da Comissão Europeia (CE) e de o seleccionar através de um processo democrático. O acto em si não é inédito, pois já o Partido Popular Europeu (PPE) apresentara Barroso em 2009, mas o facto desta decisão permitir o envolvimento dos militantes dos partidos-membros do PES, num sistema tipo primárias, significa o advento de uma certa democraticidade ao nível partidário europeu e a abertura a milhares de militantes e simpatizantes socialistas de um método anteriormente exclusivamente reservado à elite das elites partidárias. Desta forma, Martin Schulz (o candidato designado) apresentar-se-á como candidato do PES ao lugar de Barroso palmilhando os passos tradicionais percorridos por qualquer líder nacional: defesa da sua candidatura e legitimação eleitoral por parte da sua família política, e posterior apresentação ao eleitorado.
Complementarmente, ao desenhar um processo envolvente, participado e transparente, o PES assume claramente que a dimensão político-partidária é tão determinante como a dimensão político-institucional no processo de construção europeia. Que o tempo dos conformismos tácticos chegou ao fim (pela parte do PES) e que é imperativo – para o futuro da União – a sedimentação de um sistema partidário competitivo e ideologicamente coerente que permita, de uma vez por todas, através da injecção de conflito político, não só desmontar o mito de que a Comissão Europeia é uma entidade não-ideológica e apartidária, mas também transportar – para o patamar europeu – as dinâmicas de conflitualidade democráticas vividas nas políticas nacionais. Para mais, julgo essencial para o futuro da União que mecanismos como o que o PES agora valida sejam estendidos ao restante sistema partidário europeu, uma vez que a consolidação de um patamar partidário estável vivido comummente em 28 Estados permitirá certamente re-energizar o projecto europeu e combater eficazmente as dinâmicas nacionalistas, anti-europeístas (e mesmo autoritárias) que se têm apoderado dos discursos e práticas políticas de muitos partidos e governos europeus, da esquerda à direita.
Seria agora conveniente que os principais partidos europeus apresentassem candidatos próprios, pois fazendo-o permitiriam que, durante a campanha, se confrontassem diferentes ideias e projectos para a Europa; o que inevitavelmente capacitaria o eleitorado europeu, permitindo-lhe votar, finalmente, para eleições europeias, e não para um conjunto de eleições nacionais. Mas, a julgar pelo curso das negociações entre a CDU e o SPD, o provável é que Merkl apoie o candidato alemão, como em 2009 Sócrates apoiou o português. E a se confirmar tal previsão, Schulz – como Barroso – será então o candidato do bloco central europeu, apenas o senhor que se segue.
(publicado a 11 Novembro 2013)
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