Há já alguns bons anos a esta parte que Portugal, do ponto de vista político e partidário, vive numa espiral ferozmente guardada e cuidadosamente fechada, onde a curta velocidade de rotação dos seus objectos mediáticos (e a qualidade dos mesmos) tem impelido para o seu vértice, não os mais qualificados, preparados e (socialmente) interventivos, mas antes uma bafienta nata de mediocridade governativa (e parlamentar).
Em termos sistémicos e parlamentares vivemos num árido oásis, pelo menos desde que o triunvirato (Miguel) Portas – Louçã - Fazenda entendeu que a união dos seus partidos e movimentos valia bem mais que as suas partes somadas e decidiram, depois de publicamente esbaterem as suas diferenças, criar o Bloco de Esquerda. Isso há 15 anos Depois, nada, zero; até porque se encontrara garantida representatividade parlamentar – e recursos - a um conjunto alargado de protagonistas.
Do ponto de vista (intra-) partidário a situação piorou, muito, especialmente a partir do momento em que toda e qualquer ascensão dentro de qualquer partido (Bloco incluído, especialmente agora) depende essencialmente de uma carreira cinza mas obediente dentro das suas estruturas, de uma presença frequente nos órgãos das suas juventudes, da capacidade de cacicar e sindicalizar votos de forma a garantir eleições em secções, concelhias e distritais e/ou, claro, do apadrinhamento certo, garante de entrada directa para a cúpula. Como consequência organizativa destes processos constroem-se grupos e grupelhos, desenham-se estratégias de poder a medio-longo prazo, negoceiam-se e exigem-se apoios, depois utilizados para a promoção de determinados actores, articuladamente amplificada de forma a ser-lhes garantida visibilidade e espaço político. Assim, pouco importa o que fulano A ou B diga, pois desde que seja dos ‘nossos’ (e a promover) será certamente bem recebido e entusiasticamente partilhado. E, porque o espaço político-mediático é curto, e a ideia de poder atractiva, uma vez consolidadas algumas destas redes, rapidamente se concentram esforços no sentido de se manterem as posições conquistadas e impedir o surgimento de qualquer concorrência.
Tudo isto para concluir que, hoje, o debate político encontra-se inquinado na sua matriz e incapacitado geneticamente de apoiar o advento de novas ideias, pessoas e projectos políticos que escapem à metodologia e organigrama apresentados. E, como os recursos são parcos, e as oportunidades escassas, aceita-se com grado o acriticismo mudo e não-contestatário. Até porque este garante, muitas vezes, colocação ou nomeação certa.
Neste sentido, há que louvar a recente consagração institucional do Livre, cujo congresso fundador justo se realizou. Se bem que impulsionado pela visão – e recursos – do Rui Tavares, o mesmo podia facilmente ter-se resignado, como tantos, e aceite uma co-adopção luxuosa. Não o fez, decidindo antes correr o risco de romper o circuito fechado em que vivemos, não só à esquerda. E se mais não fizer que energizar o debate político em torno dos temas da Europa e da Ecologia, e proporcionar um novo espaço de liberdade e escolha, será já um projecto a seguir com toda a atenção. Até porque o actual monismo pluripartidário, responsável por muito do encurralamento mudo da nossa sociedade, disso necessita.
(publicado no Diário Económico a 4 de Fevereiro de 2014)
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