Quarta-feira, 15 de Janeiro de 2014

Rescaldo embotelhado

Mais que ser sujeito a análises eleitorais simplistas e aglutinadoras, preocupadas em apresentar, de forma adaptada a formatos televisivos, macro-sínteses de vencedores e vencidos, os resultados do acto eleitoral de Domingo findo merecem uma reflexão subtextual mais refinada e atenta.

Assim, quem se apresse em apenas ver uma derrota clara do Governo ou uma estrondosa vitória do PS, corre não só o risco de estar meio-certo (pois claramente o PS não obteve uma vitória estrondosa) como de não entender a natureza das possíveis transformações que muito em breve poderão ocorrer no sistema político-partidário português fruto do papel das candidaturas independentes e do impacto que estas podem ter na relação entre as estruturas partidárias de base (maioritariamente construídas sob dependência autárquica) e as cúpulas partidárias.   

Claro que não procuro menorizar as apreciações nacionais: derrota humilhante em toda a linha do PSD e do Governo, importante vitória global do PS – e de António José Seguro -, impressionante ‘come-back’ a Sul da CDU, debacle do BE, «penta» do CDS, fim do «Rei Momo», interessante reacção tripeira e, naturalmente, a entronização de António Costa como figura-proa da política nacional, arregimentando a Capital atrás da sua maioria absoluta. Desta apreciação se entende que, se algo de novo trouxe Domingo à política nacional foi que, à esquerda, a relação entre as  alternativas ao Governo complexificou-se, essencialmente em virtude do PS não ter conseguido capitalizar o desmoronamento do PSD (para quem perde Braga e Guarda e ganha somente Coimbra), ter perdido importantes municípios urbanos para a CDU (Loures, Beja ou Évora) e não ter conseguido ganhar Oeiras, Faro ou Porto. Para mais, como foi Costa o «Homem da noite», se festa brava houve em Lisboa, foi no Altis e não no Lago do Rato...

Em todo o caso, mais significativo que estas apreciações é antever o impacto do escrutínio nas estruturas dos principais partidos, nomeadamente no PSD e no PS. E isto porque, como já aqui escrevi, o poder de alguns barões (e das estruturas que controlam), apontado como um dos principais obstáculos à abertura e renovação dos quadros partidários, inevitavelmente enfraquecerá, em virtude do transporte de tais estruturas (e pessoal) para as candidaturas (e executivos) independentes. Se a este fenómeno acrescentarmos a saída de cena de alguns ‘dinossauros’ – e seus caciques – inevitavelmente concluiremos que em muitas concelhias e distritais/federações algo mudará, o que poderá colocar em cheque a cristalizada hierarquização entre os eleitos das sedes nacionais e os sindicatos de voto controlados por tais barões, antecipando-se novos desenhos intra-partidários. E decerto que este movimento será forte no PSD (menos no PS). Resta saber se esta oportunidade potenciará um aumento na qualidade do nosso sistema partidário ou se, pelo contrário, e como em tantas tantas vezes, mudar-se-ão rótulos para se preservarem garrafas. 

 

(publicado a 1 de Outubro 2013)

publicado por politicadevinil às 14:18
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