Quarta-feira, 15 de Janeiro de 2014

Portugal cativo

 

A recente indecisão em torno do pagamento dos subsídios de férias aos funcionários públicos veio nos recordar, ruidosamente, de que estamos perante um dos mais cobardes, impunes e cínicos governos da história da democracia portuguesa.

Cobarde, sim, pois o Governo da República, escudado no manto da sua legitimidade parlamentar (pois questiono a sua legitimidade popular), sem que alguma vez tenha anunciado tais medidas aquando do seu diálogo genético com os portugueses (leia-se campanha eleitoral), e depois do Tribunal Constitucional ter chumbado tais pretensões, regressa na insistência de interferir de forma obtusa e abusiva – e sem que permissão lhe tenha sido dada – na vida de milhares de portugueses, que apenas procuram ter a oportunidade de poderem organizar as suas vidas – e as suas merecidas férias – de forma ordeira e pacifica. E fá-lo, ou procura fazê-lo, impunemente, pois sabe que pode aproveitar-se da paciência institucional da Presidência da República para sustentar a ambição de procurar circum-navegar as decisões do Tribunal Constitucional.

Ironicamente, este comportamento revela também como um cinismo atroz se apoderou com facilidade de todas as putativas definições ideológicas e coerências discursivas que em tempos o Executivo de Passos Coelho procurou fixar, pois para um governo que se gaba(va) das suas raízes liberais, o grau de interferência directa na vida dos cidadãos atinge níveis de ingerência de fazer inveja a muitos regimes totalitários. E o pior é que esta intromissão se revela aleatória e imprevisível, sequestrando lenta e progressivamente o País, que hoje se encontra refém das vontades furtuitas de um governo socialmente alienado e obcecado apenas com alter-realidades estatísticas e os seus miseráveis impactos numéricos.

Infelizmente, este sequestro às liberdades de um povo tem-se alargado de forma substantiva a diversos sectores da sociedade política, contaminando movimentos sociais e sindicatos, partidos e políticos. Estes, também de forma demagógica e abusiva, têm procurado estratégica e sistematicamente capturar a liberdade e a energia do descontentamento social – de pura origem popular -, para, depois de operadas as transformações discursivas necessárias, visarem a total apropriação de uma narrativa social que não procura institucionalização.

É neste múltiplo sequestro que se encontra hoje Portugal. Um sequestro asfixiante que nos coíbe de respirar liberdade, pois se é verdade que este Governo já não fala em nome dos portugueses, também os sindicatos já não falam em nome da maioria dos trabalhadores que se dizem representar, nem os movimentos sociais falam em nome das centenas de milhar que ocupam as ruas e avenidas em cada momento de protesto.

Resta saber que nova variante do síndroma de Estocolmo tomará conta do eleitorado nacional, com qual dos seus captores desenvolverá ele uma relação de proximidade (eleitoral).  Até porque, sabendo o País institucionalmente cativo da vontade de um Presidente estático e da ambição desmedida de um sequestrador profissional (leia-se Paulo Portas), só o voto nos permite aceder a um momento de respiração totalmente liberto de todos os nossos sequestradores. 

 

(publicado a 18 Junho 2013)

publicado por politicadevinil às 14:03
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Abril 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30


.posts recentes

. Damnatio memoriae

. Liberais traídos

. Um acto de primeiríssima ...

. Circuito fechado

. Eunucos sem pio

. Olá ò vida malvada

. Madiba e as vacas sagrada...

. Ser LIVRE

. O senhor que se segue

. A importância de um candi...

.arquivos

. Abril 2014

. Janeiro 2014

. Maio 2013

. Abril 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Outubro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Abril 2010

. Março 2010

blogs SAPO

.subscrever feeds