Quarta-feira, 15 de Janeiro de 2014

O senhor cacique

Em Dezembro de 1976 o País finalmente teve a oportunidade de se envolver activamente nos processos democráticos jurados por Abril, e escolher de entre milhares de candidatos os seus responsáveis políticos municipais. Até então a prometida participação popular tinha-se circunscrito à eleição de Ramalho Eanes e à escolha de deputado, criteriosamente escolhidos pelos directórios partidários, para a Constituinte e para a primeira Assembleia legislativa.

Ao se abeirar do poder local, a Revolução completava-se. Em causa já não estariam as pedras basilares do sistema, rapidamente absorvidas pelas principais elites militares e partidárias, mas antes a escolha de políticos e políticas de proximidade, mais preocupadas com as rotinas das populações que com os macro-desígnios da grande política, reservada à nata da intelectualidade partidária reunida em Lisboa.

Esse Dezembro proporcionaria ainda o primeiro verdadeiro teste à capacidade organizativa do imberbe sistema partidário saído da Revolução, pois se até à data os principais partidos tinham-se preocupado– e bem – com a gestão do processo revolucionário em curso e com a consolidação das suas elites nacionais, agora seriam obrigados a criar estruturas locais que garantissem capacidade de intervenção política de alcance municipal. Foi este o momento primordial para a existência de centenas de pequenas estruturas partidárias.

Em muitos casos os partidos organizaram-se em torno de elites locais (muitas já dominantes do respectivo aparelho administrativo durante o Estado Novo), noutros num processo espontâneo, onde ‘quem aparecia ia para a lista’, tornando-se candidato, alguns eleitos, mesmo como presidentes de Junta ou de Câmara. Investidos de nova roupagem, muitos desses eleitos rapidamente entenderiam que os recursos à sua disposição lhe iriam permitir fazer vida como autarca. Ter e dar emprego. E que, chefiando os processos de institucionalização do partido, inscrevendo militantes e liderando secções e concelhias, calmamente construiriam em seu redor as máquinas eleitorais que garantissem a desejada reeleição.

Com o passar dos anos, estas redes alargar-se-iam das secções às concelhias, das concelhias às distritais (ou federações), e destas às estruturas nacionais, ameaçando e confrontando – ironicamente – a antiga hierarquia partidária. Em breve, o País encontrava-se repleto de pequenos condes e barões, alguns marqueses e poucos duques, estrutura nobiliárquica que acrescentava à ambição de autarca a de deputado ou de, quem sabe, ministro, num primeiro momento, ou de gestor em empresas públicas, depois. Ambições garantidas, naturalmente, pelo controlo férreo das estruturas partidárias. 

Assim, no mesmo dia ambicionado para nos apoderar democraticamente e de consolidar a capacidade da intervenção cívica de índole municipalista, foram depositadas as bases que hoje armadilham a nossa democracia, e um dos cancros do nosso sistema partidário: o cacique local, esse símbolo literário da permanente incapacidade lusa de se governar. 

 

(publicado a 17 Setembro 2013)

publicado por politicadevinil às 14:17
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