Quinta-feira, 3 de Abril de 2014

Eunucos sem pio

No meu trabalho como historiador, investigando os anos 30, sou diariamente confrontado com a crescente hegemonia política e ideológica do fascismo no mapa político europeu e de como, paulatinamente, se processaram as transição para modelos autoritários de cariz totalitário e se desmantelaram, peça a peça, as instituições democrático-liberais construídas no pós-I Guerra Mundial. Claro que bem longe da imaginação estava a barbárie do genocídio, mas era já bem patente que estes Estados autoritários promoveriam – a bem a Nação e da pacificação social - sociedades exclusivas e estanques, masculinas,  e que utilizariam todos os métodos disponíveis, legais ou não, para forçar a construção de uma utopia fascista, um Homem Novo, xenófobo, racista, homófono e misógino por definição moral e ideológica. E assim, um após outro, se foram retirando direitos fundamentais a esta e a outra minoria, primeiro a socialistas e comunistas, depois a sindicalistas e judeus, homossexuais e deficientes, mulheres e negros. Contra esta sistematização legal poucos foram os que organizadamente se insurgiram, pois não se consideravam parte da minoria afectada.

Sabemos hoje o resultado desta desistência e estamos conscientes da capacidade de “entrismo” do fascismo nos edifícios institucionais das democracias (via eleições e governos) em momentos de crise, apoiados em promessas de pacificação social, desenvolvimento e revitalização económica, reapropriamento da soberania nacional e na incapacidade de actuação dos sistemas democráticos em momentos de conflitualidade social e insolvência económica. Aliás, já nos anos 30 alguns alertavam para este perigo e para a necessidade das democracias liberais construírem diques legais que impossibilitassem o acesso legal de tal ideologia ao poder; preocupações aliás muito visíveis na aliança entre sociais-democratas e democratas-cristãos no processo de construção europeia. Não sei, então, quando deixámos de nos preocupar, mas os acontecimentos da passada sexta-feira na Assembleia da República em muito se assemelham ao ocorrido em muitas legislaturas fascistas, nomeadamente por se decidir intervir, por questão de princípio acrescento, nos direitos consagrados e protegidos de uma minoria concreta.

Pelo exposto, é evidente que vivemos momentos críticos que requerem imediata intervenção. A recente consagração pública da nova Mocidade Portuguesa (leia-se JSD e JP) demonstra que o desnorte governamental e a percepção de impunidade política (onde anda o Presidente de todos os portugueses?) permite com uma banalidade atroz que se dê voz à nova face do fascismo contemporâneo e se ultrapassem todos os limites da moral política e da boa ética republicana, em prol da construção de um Novo Homem, pouco escolarizado, heterossexual, decerto branco, de boas famílias e bons costumes. Imagino que esta nova Mocidade (carinhosamente apoiada pelos respectivos Chefes) pense que a política de depauperização da sociedade portuguesa terá já castrado o País, e o tornado num eunuco sem pio. Saibamos então demonstrar que tomamos sérias as lições da história, que muito podemos ser, mas poetas castrados jamais.  

 

(publicado no Diário Económico a 21 de Janeiro de 2014)

publicado por politicadevinil às 10:55
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