Quarta-feira, 15 de Janeiro de 2014

Alice no País das armadilhas

Acreditem que se fosse director de um jornal estaria neste momento a preparar a substituição dos tradicionais suplementos cor-de-rosa que, explorando ao detalhe os insignificantes fait-divers da nossa insignificante socielite televisionada, tanta companhia fazem ao povo nas manhãs e tardes de moleza estival. E substituía-los por sintéticos manuais de Ciência Política e Direito Constitucional, devidamente opinados por uma cuidada selecção de comentadores mais ou menos capacitados, e naturalmente acompanhados de gráficos e tabelas de simples entendimento e exemplos comparativos quanto baste. Talvez ainda acrescentasse uma colecção de cromos de ‘figuras-de-relevo-da-vida-política-nacional-com-capacidade-de-liderar-um-governo-de-salvação-nacional’; ideia que, com sorte, ainda receberia apoio da Panini . Tudo para que o povo – a banhos – consiga melhor entender as nuances da política do burgo e, munido da informação disponibilizada nos cromos, pudesse preencher as conversas de fim-de-tarde a formar governos e a escolher ministros. 

Cinismos irónicos à parte, em boa verdade a recente intervenção presidencial colocou o país à procura de tabelas explicativas que decifrassem a última rábula emanada de Belém. É que, sem alguma vez mencionar os graves eventos políticos em curso (demissões de Gaspar e Portas, debacle governativa), nem opinar sobre a proposta de novo elenco governativo, Cavaco Silva conseguiu simultaneamente apresentar-se em vestes de ‘Rainha de Copas’ – cortando a cabeça ao actual Governo – e no papel de ‘Coelho Branco’, colocando a classe política nacional atrasada para um inadiável compromisso que sabe (quase) inalcançável, deixando ainda, com desplante desdém, o papel de ‘Alice’ não para o outro Coelho da história mas para o líder do PS, que de imediato, encavacado, demonstrou não saber ao certo para que lado do espelho olhar. 

Aqui, e na maturidade do sistema partidário português, reside o nó górdio do actual impasse político. Fossem as nossas estruturas partidárias mais que apenas  acríticos e inertes órgãos de endógena representação institucional (e mais representativos da pluralidade da sociedade), ou fossem mais independentes das direcções nacionais que os fez eleger, que decerto já teriam entendido que nenhum dos actuais líderes reúne as condições necessárias para presidir o almejado ‘governo de salvação nacional’, e teriam actuado de forma condizente (ou, por outro lado, já teriam abdicado todos os presentes líderes partidários de tal missão). Assim, cabe a António José Seguro, com legitimas ambições ao trono de Midas, saber como desembainhar a espada que sabe que detém. O problema é que a ‘Alice’ que representa não se encontra em nenhum País das Maravilhas, antes num bastante armadilhado. Em todo o caso, merecem os portugueses, e os membros do Partido Socialista, saberem que tipo de interpretação fará o líder do PS de tão inusitado papel principal, e saberem ao certo que espada empunha: se uma de madeira, inconsequente e desnecessária, se uma bem forjada, decisiva e prospectiva.  

 

(publicado a 16 de Julho 2013)

publicado por politicadevinil às 14:06
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