Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011

Oportunidade perdida?

À entrada para 2010 escrevia nestas páginas que o ano iria ser exigente. Para o Governo, que teria de ter a sensibilidade e o bom senso de saber manejar politicamente a falta de consenso parlamentar e a animosidade de uma oposição sedenta de protagonismo político.

Para a Presidência, que teria de saber conviver com a mais instável solução governamental dos últimos anos e relacionar-se com um governo titubeante, frequentemente navegando à bolina. E para a oposição, que teria de conviver com uma realidade política onde lhe seria requerida muita responsabilidade e sentido de Estado.

Ora 2010 passou, e os principais actores políticos falharam, redondamente. Governo e oposição falharam ao não terem conseguido criar soluções pacificas e estáveis que apaziguassem os mercados e colocassem o país na porta de saída da crise. Isto significou que o sistema partidário, que deveria ter sabido responder maduramente a estes desafios, demonstrou total incapacidade de saber gerar compromissos políticos pacíficos e prospectivos. A Presidência falhou também, por não ter o país retirado nenhuma evidente vantagem do facto de ter, no seu pináculo institucional, um político profissional, ex-primeiro-ministro e ministro das finanças e economista de renome. Perdemos esta oportunidade.

Esta reflexão é importante pois, em Janeiro, iremos eleger um novo Presidente (ou não); e temos assim a oportunidade de reflectir sobre o papel do Presidente no nosso sistema político. Ora, e perante a situação política interna, a dimensão que acarreta apreciação mais atenta é a capacidade de dissolução da Assembleia da República. E, neste ponto, ambos os candidatos em competição eleitoral (Cavaco e Alegre) tem deixado bem claro que o factor decisivo na utilização de tais poderes é o carácter do titular do cargo, e a sua capacidade de discernimento e de análise da situação política nacional.

Falamos então de carácter. Cavaco já deu provas de não conseguir intervir qualitativamente no quadro político nacional, e só não dissolveu o Parlamento no seu mandato findo por notória falta de confiança na solução preconizada por Passos Coelho. Alegre, por outro lado, tem demonstrado total incapacidade de se abstrair de um discurso "abrileiro" datado, assente num monolítico confronto esquerda-direita; inoperante defronte da incapacidade de relação entre as forças partidárias que o apoiam.

2011 será, assim, sempre, uma oportunidade perdida. Não termos conseguido produzir candidatos presidenciais com outra vitalidade e capacidade de percepção do sistema político nacional demonstra que Portugal, 36 anos após ter instaurado um regime democrático, ainda tem muito que galgar para produzir o necessário caldo político e cultural que lhe permita, definitivamente, colocar-se no rumo sonhado e escrito por tantos e tantas ao longo da nossa história colectiva e que, em última analise, apenas procuraram que o país consagrasse uma cultura de exigência, responsabilidade e de mérito. E para atingirmos tal desiderato, teremos ainda de esperar.
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publicado por politicadevinil às 23:06
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