Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010

Civilidade à Portuguesa

Numa altura em que em Portugal decide se vai ou não entrar em crise política interna, em que os principais líderes partidários se deliciam com ataques diários, e em que tudo vale na ameaça e chantagem política; por estranho que pareça, tenho orgulho que todo o debate público decorra dentro dos trâmites de um regime plural que sabe respeitar a diferença de opinião.

Mas não me tomem por convencido na qualidade do nosso novel regime democrático. O nível da nossa cultura política é ainda muito baixo; assim como muitos dos atributos e qualificações da nossa classe partidária. Qualquer análise superficial aos acontecimentos que tem marcado a agenda mediática nos últimos meses permite verificar tal afirmação. Líder da Oposição a querer fazer o Orçamento do País, primeiro-ministro a cumprir com as suas obrigações e a ser atacado por isso, e Presidente da República que a escassos 3 meses da sua possível reeleição ainda pretende ser apenas titular e não recandidato ao cargo.

Estas minhas notas referenciais tem uma origem. Fui convidado para a primeira Marcha LGBT de Belgrado ocorrida neste fim de semana, reunindo cerca de 1000 activistas e apoiada por diversas forças políticas progressistas, pelo Governo sérvio e organizada por associações LGBT locais. Como em muitos países civilizados, o tema é quente e provoca aguerrido debate. Como em Portugal. De um lado, e para simplificar, forças progressistas (a defender os direitos cívicos) e do outro forças conservadoras (que procuram impor uma leitura moral da sociedade). A diferença é que no nosso País, o combate é estritamente político e verbal, organizando-se manifestações pacíficas, televisionando-se "prós e contras", debatendo-se no Parlamento.

Em Belgrado, metade da cidade foi fechada ao trânsito, 5.000 polícias foram destacados e desenhado um aparato logístico preocupado integralmente em proteger a integridade física dos participantes na Marcha. Nas ruas circundantes assistiu-se a dezenas de confrontos entre as forças de segurança e grupos clerico-fascista de inspiração nazis e homófobicos, que espalharam o pânico pela cidade, incendiando carros, vandalizando a sede do Partido Democrático e hospitalizando mais de uma centena de pessoas (maioritariamente polícias). O debate político, deslocara-se com violência das sedes Políticas para a Rua; e a troca cândida de argumentos políticos (e legais) transformou-se numa luta física até à morte, alimentada a ódio e intolerância.

Por tudo isto, e quando o meu país está prestes a inaugurar uma profunda crise política interna, lembro-me do quanto já conseguimos construir, quando o interesse colectivo foi colocado à frente da "partidarite" e da intriga política. Recordo uma certa "civilidade portuguesa" que consegue, apesar das diferenças, unir o País em torno de combates comuns. Mas depois estranho como temos recentemente apagado esta memoria...

publicado por politicadevinil às 13:24
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