Terça-feira, 10 de Agosto de 2010

Crise e Ideologia

No início dos anos 30 a Europa – e o Mundo – atravessavam uma crise económica e financeira de dimensões imensuráveis.

O que tinha começado em Nova Iorque, numa inocente terça-feira de Outubro de 1929, rapidamente se alastrara ao mundo industrializado arrastando economias e regimes; provocando desemprego em massa, hiper-inflação (em alguns países) e intensa convulsão social e política.

Entendia-se que estavam na base do sistema capitalista as razões da crise, e procuravam-se soluções em dois novos tipos de regime políticos, emergidos dos anos 20: o comunismo e o fascismo, em especial neste último. 
A atracção do Fascismo passava - também - pela sua capacidade de responder à crise e de, simultaneamente, proporcionar uma fórmula de governo estável, de cariz autoritário, que garantia uma certa pacificação social; numa altura em que muitos regimes democráticos eram acusados de não proporcionarem estabilidade governativa e de terem apoiado o modelo capitalista que tinha originado a ‘debacle' de 29. Este cenário interessou a muitos politólogos que se deliciavam com a divisão no Velho Continente entre democracias liberais e regimes autoritários.

Claro que a grande questão era saber que modelo político e ideológico poderia melhor resolver a crise, e muito do debate subsequente envolveu a definição do papel do Estado na Economia, a regulação dos mercados financeiros e o alcance do poder dos Governos. Foi uma contenda intensa, inicialmente dominada pelo paradigma fascista, e cuja resposta democrática eficaz foi dada após a eleição de Roosevelt em 1932, e a aplicação do seu "New Deal" (curiosamente um programa que muitos acusaram de ser socialista e estatista).

Há 80 anos debatia-se então o fim da crise com claras balizas ideológicas. Os pilares do modelo liberal haviam sido esfarrapados e a sua hegemonia era ameaçada por um conjunto de novas propostas autoritárias. A solução para a solvência do modelo capitalista foi abrir as portas à intervenção do Estado e a uma série de políticas públicas de inspiração social-democratas (no sentido europeu do termo).

Hoje vivemos num mundo hegemonicamente pós-liberal, com nova crise mundial criada pela aplicação de um conjunto de políticas neo-liberais. Neste cenário estranha, então, que as suas soluções sejam quase exclusivamente de desenho liberal. Até quando? Teremos de ver uma nova ameaça fascista (existente em alguns países da nossa Europa) para que seja novamente colocada em causa esta hegemonia? Ainda mais quando existem propostas da família socialista prontas a serem colocadas em prática, como uma melhor e mais eficaz regulação dos mercados financeiros internacionais.

Bem sabemos que 2010 está longe de 1930, mas parece que aprendemos pouco com a História. São necessárias mais políticas de inspiração progressista para sairmos da crise, e não obsessões com o combate ao ‘deficit' e planos de austeridade de matriz liberal.

 

publicado por politicadevinil às 18:16
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