Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2013

Às portas de Berlim.

A História é basta em exemplos de experimentalismos sociais, geralmente de bom e exclusivo uso para alguma elite dominante (qualquer ela que seja) e em malefício generalizado da população. Povos, países e  civilizações, têm servido de laboratórios para a imaginação e criatividade de generais e políticos, líderes e agentes económicos, que, a mando próprio ou dirigidos por deuses vingadores ou ideologias perversas, procuram colonizar e civilizar vencidos e conquistados, impondo novas narrativas tatuadas com tinta dos aparelhos de repressão desenhados de acordo com as ambições dos novos donos. «Dos fracos não reza a história», sintetiza esta malaise humana, esta vontade de querer dominar pela força das armas ou da política, por imposição religiosa ou ideológica ou através da supremacia economia. Tudo por mais um punhado de terras, de Igrejas ou influência político-cultural, por mais rendas e domínio económico-financeiro, por mais autoridade e poder.

Muitas destas experiências necessitaram de ser testadas em pequena escala, verificados os seus pressupostos e aferidas as suas capacidades de aplicação global, escolhendo-se a dedo os sujeitos válidos para estes testes de ensaio de acordo com a sua (in)capacidade de apresentar resistência. A História europeia está pejada de experiências laboratoriais. Hitler, por exemplo, cinicamente testou os avanços tecnológicos da industria bélica Nazi durante a Guerra Civil espanhola, utilizando Guernica como miniatura de Varsóvia, Roterdão ou Londres; enquanto Estaline, outro arquétipo do moderno Engenheiro de Almas, tranquilamente moldou a sua URSS sob batuta meticulosa do Gulag, impondo a regra e esquadro modelos políticos socialmente esdrúxulos, válidos apenas nos desenhos teóricos triunfalmente expostos nas paredes cruas do Kremlin.

Infelizmente o plateau europeu continua a apresentar, em 2012, uma mise-en-scène experimental, desta feita a comando das ambições de predomínio global das forças mudas do capitalismo financeiro internacional. Como no passado, novos encapuçados selecionam a dedo um par de países para servirem de balão de ensaio, com o objectivo de testarem laboratorialmente a capacidade das populações autóctones em assimilarem os pressupostos teóricos da próxima fase do capitalismo internacional. Mas hoje a Europa, ou a União, está preparada institucionalmente para lidar com tais ambições desmedidas, bastando que intervenha concertadamente sob os auspícios de uma visão alternativa. Em teoria não é difícil alterar o curso das políticas de austeridade que diariamente atiram milhares de concidadãos europeus para níveis de miséria e pobreza inimagináveis há cinco anos. Bastaria que se alterasse a liderança e o programa político do país-charneira da União (Alemanha), primeiro, e que depois se elegesse um Parlamento Europeu e um Presidente da Comissão de perfil e programa progressista, que recolocasse o centro da actividade política nas pessoas, retirando-o dos mercados incógnitos e das folhas binárias de Excel.

O problema encontra-se na teimosia e incapacidade da maioria dos políticos europeus em abraçarem o ideal do projecto da União como mais que uma mera fórmula teórica de cooperação organizada entre Estados soberanos, em saírem dos seus condicionalismos nacionais e entenderem o patamar europeu como complementar às intervenções locais, regionais e nacionais, e em politizarem os assuntos da União seguindo alinhamentos definidos e partilhados entre partidos-irmãos da mesma orientação político-ideológica. Ora apesar de mais de 50 anos de integração europeia e sob regência do Tratado de Lisboa (que reforça, ainda que incompletamente, o carácter democrático das instituições europeias), verificamos que tal realidade encontra-se distante, como se afere pelo apoio de diversos partidos socialistas ao candidato apresentado pelo PPE às eleições europeias de 2009 (Durão Barroso), ou na incapacidade do SPD alemão (e do seu candidato a chanceler, Peer Steinbrück) em se desassociar do caminho da austeridade cega imposta pela chancelarina Merkel.

Assim entramos em 2013, ano decisivo e antecâmera do próximo acto eleitoral europeu sem se acreditar que sejam substancialmente alteradas as ambições de domínio global dos que acreditam que é através da redefinição do papel do Estado nas sociedades contemporâneas, da sua redução a níveis quase simbólicos, do desmantelamento do Estado-social e da consequente transformação do espaço europeu num conjunto de Estados low cost (atraentes condomínios ao dispor do lucro da alta finança) que se constroem sociedades modernas justas, tolerantes e igualitárias. Como no passado, tudo por mais um punhado de terras e rendas, por mais autoridade e poder. Mas a História não se repete, ao contrário do dizer popular; e os fracos de hoje são os mais de 300 milhões de europeus que diariamente perdem qualidade de vida.

E se as portas de Berlim assistiram, há mais de 60 anos, ao confronto final entre dois dos cavaleiros do apocalipse, as mesmas ruas que ladeiam a Brandenburger Tor recuperarão a atenção e os holofotes da Europa, desta feita não provenientes das anti-aéreas ou das opticas dos T-34, mas da esperança dos que acreditam que é tempo de terminar com os laboratórios criativos patrocinados por mãos (invisíveis) que se querem conhecidas e responsabilizadas. Terão, no próximo ano, o SPD alemão e Peer Steinbrück a oportunidade de escolherem uma narrativa alternativa mais condizente com a Europa que desejamos, e espero que o partido de Friedrich Ebert, Willy Brandt ou Helmut Schmidt faça a tempo esta demarche. Já em 2014 todos poderemos escolher a tinta que – espero – tatuará uma nova fase, não do capitalismo financeiro internacional, mas da história do progresso social europeu.

 

(artigo publicado em edição especial do Diário Económico, em Dezembro de 2012)  

publicado por politicadevinil às 15:48
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