Terça-feira, 23 de Outubro de 2012

Alternativas

Para último dia como feriado nacional, este 5 de Outubro esteve carregado de eventos simbólicos. Primeiro foi a paródia orquestrada pelos espíritos dos heróis da Rotunda contra a bandeira da República, içada invertida, de pernas para o ar, no varandim da CML. Depois foi a re-encenação dos ‘Congressos Democráticos’ de Aveiro, agora em versão lisboeta, recordar as reuniões magnas da oposição anti-salazarista, denunciando (como em 57, 69 e 73) a falta de representatividade social do Governo e a sua inabilidade de condução dos assuntos da governação.

Se no primeiro caso estamos perante a coincidência do acaso simbólico, já o Congresso Democrático das Alternativas procurou agarrar o simbolismo do historial oposicionista ao Estado Novo para apresentar às esquerdas (e veremos se ao país) um projecto de convergência ‘anti-fascista’ alicerçado num conjunto de ideias e personalidades capazes de representar uma alternativa real e consistente. Mas, como durante os anos da escuridão salazarista, e apesar da maturação cívica, académica e profissional (e política) de muitos dos congressistas e promotores da iniciativa, rapidamente o sectarismo partidário apoderou-se do discurso pós-congresso, em especial o comunista e bloquista. Sem surpresa, repetiram-se as notas gastas do tango porteño tantas vezes escutado na história das oposições portuguesas, pretendendo o PCP não perder a hegemonia percepcionada (mas não real) sobre os movimentos sociais e o BE, herdeiro designado das esquerdas pós-soixante-huitard, apresentar-se como a vanguarda desses mesmos movimentos elegendo ambos como verdadeiro inimigo o PS, como se depreende das declarações de Louçã e Jerónimo.

De certa forma entende-se que Comunistas e Bloquistas queiram manter impoluto o velho tango taberneiro de Gardel. Afinal definiram-no. Mas não compreenderem que o bandonéon de Piazzola acrescenta notas de cosmopolitanismo a uma visão maniqueísta da sociedade (pretendendo-a inter-classista, complexa e politicamente plural) apenas manieta qualquer oportunidade de construção de uma alternativa edificada na articulação cívica da sociedade civil com os movimentos sociais e partidos políticos. Assim, e como nos 16 anos da República, a incapacidade de diálogo e convergência entre as principais forças progressistas portuguesas decepa qualquer ambição de edificar uma sociedade que (finalmente) consagre os valores primordiais inscritos nos manuais da ética republicana (adaptada). E enquanto se perde a oportunidade histórica de reunir num projecto comum um conjunto de pessoas com uma visão progressista do país, nem necessitamos de esperar pela próxima intentona reacionária ou revolução nacional. Ela encontra-se em curso e diariamente desmantela o país como o aprendemos a conhecer. E o ridículo é que as linhas gerais aprovadas na Aula Magna apenas desejaram denunciar o Memorando, reavaliar a dívida e apresentar uma alternativa que permitisse retirar a sociedade portuguesa do sufoco desta austeridade desigual.

 

publicado por politicadevinil às 14:03
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