Terça-feira, 9 de Outubro de 2012

Tempos interessantes

«Que vivam tempos interessantes», desejavam os chineses aos seus inimigos, esperando que a intriga da corte, a revolta das elites ou a insubmissão popular os assolassem ao ponto de se arruinarem politicamente. Uma praga macabra que parece ter recaído sobre o Pedro, pois subitamente no condado imaginário do rei-garoto tudo ruiu. Como em peça de enredo pós-medieval, o seu círculo apenas intriga e conspira. Não governa nem manda. Vive numa bolha imaginada, de sabão fino. Enquanto isso, a realidade, indignada com o autismo e a injustiça social, ruidosamente insurge-se nos becos e vielas, revoltando-se nas ruas e avenidas.

Acantonado e só, e sem forma de pacificamente sair da sua residência salazarista, o rei-garoto estranha as perturbações no seu sono tranquilo, atormentado na busca da semente de tal praga. Não entende que a origem é ele próprio – a sua incompetência, impreparação e insensibilidade política. E que a actual vaga de desdém e escárnio não é maldição divina, apenas a não aceitação – absoluta – dos planos de engenharia social ideologicamente formatada que, encoberta na tecnocracia da troika, alguns conselheiros do rei-garoto pensaram poder executar livremente.  

Para pena do Pedro, que pensava que esta coisa da democracia seria apenas um passo intermédio para o advento da ditadura do capital, verificou-se que existe um limite ideológico que ao ser ultrapassado ateia tal reacção na rua, nos parceiros sociais e na oposição politica, que ao invés do desejado regresso a um Portugal socialmente pacificado e dominado por um oligopólio de investimento estrangeiro, privado, regressou antes o país ao seu imaginário de Abril, pré e pós revolucionário.

Ao não aceitar existir como coutada de estranhos senhores, não convidados e sem maneiras, Portugal desnudou politicamente o actual Primeiro-ministro, expondo-o como garoto imberbe. Se crescido fosse, sairia de cena, mas como rapazote pensa em pinos, em mexer na sua ‘cage aux folles’ ou prostra-se como Madalena arrependida nas redes sociais. Não entende que como erro de casting espera apenas que o televoto de Belém o expulse da ‘vivenda São Bento’. Sobrevive porque, mesmo não governando, falta sucessor; porque a oposição (ainda) não é alternativa. Para o ser, tem de pacientemente organizar-se em conjunto com os diversos parceiros sociais, com a rua interclassista e socialmente transversal, e com os partidos e movimentos políticos que, partilhando da inconsequência das actuais politicas de austeridade, saibam construir uma alternativa politicamente sólida, socialmente consistente e economicamente viável.

São de facto tempos deveras interessantes, os que vivemos hoje. Tempos em que, expondo os garotos, se espera das mulheres e homens bem formados deste país, dos velhos e dos novos, que assumam a responsabilidade de construir uma plataforma politica progressista sintonizada com as necessidades e ambição da sociedade portuguesa (e europeia). Aqui mora a responsabilidade do nosso futuro colectivo. Que saibam se entender. E o Pedro? Se deixarem volta para a escola.

publicado por politicadevinil às 13:20
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