Quarta-feira, 15 de Janeiro de 2014

Olá ò vida malvada

O luto diariamente vivido por um País já demasiado nervoso e desiludido com o seu futuro foi repentinamente saturado com a inesperada e não anunciada perda  de uma das suas principais referências: Eusébio da Silva Ferreira. Esta anestesiante notícia, que nos recorda que também os Deuses vivem como mortais antes de se sentarem à mesa do Olimpo, foi aproveitada pelo Governo para alongar o estado de narcotização geral com três dias de luto nacional. Medida justificada, mas bem aquém da imagem da Pantera Negra como elemento aglutinador de uma certa imagem de identidade nacional e de certo modo injusto para quem foi vendido durante décadas como exemplo apurado da ideia de um Portugal pobre mas honrado, civilizador e promovedor de uma limitada ascensão social (ou económica) com base no mérito dos talentos individuais e no dedicado trabalho árduo, áreas ideológicas bem confortáveis no seio deste Governo.  Em todo o caso, a morte de Eusébio não nos faz esquecer que o País já se encontrava anestesiado com a visão de mais um ano perdido, fustigado pelos ataques aos seus nervos (e bolsos) e cansado de ser tratado como tolinho malfadado e indigente sem capacidade de discernimento ou apreciação crítica da realidade, isto enquanto a sua elite política se delicia com fados e corridinhos de entretenimento cortês e de conservação do status quo.

Do lado da Situação, o Governo – prometido de estabilidade e de caminho definido – além de demonstrar publicamente uma preocupante alienação em cada apreciação do estado geral do País, parece só se entreter com as desafinadas guitarradas que acompanham o Fado do empossado que música as terceiras, quartas e quintas escolhas que hoje enchem Secretarias de Estado e ministérios, transformando os membros do governo não nos cromos prateados que no passado com custo eram adquiridos, mas em autocolante banais, repetidos e de troca fácil. Felizmente que só Eusébio merece estátua em vida, senão decerto muitos seriam os jotinhas a trocar uma nomeação oficial por um busto mal parido mas bem colocado em rotunda de boa visibilidade e de trânsito garantido. Já a oposição, perdida no paradoxo da convergência pulverizada, parece convencida que a prometida unidade e desejada alternativa governamental se obtêm e constrói na soma de anúncios públicos de projectos não-divergentes e da contagem dos cromos que se repetem nas recauchutadas cadernetas regularmente produzidas pela esquerda nacional, ficando por explicar anatureza do estranho fenómeno que persiste em dispersar gente que deveria já saber (há muito) se congregar.

E enquanto a elite se entretêm com estas sonatas mudas, o Povo musica-se com outros sonidos, pensando se terá uma vez mais forças para enfrentar tudo de novo. Sem Homem do leme à vista, remam remam desconjuntadamente o mesmo barco Grego, vendo o futuro negro como a noite, suspirando ofegantemente por uma espera demasiado longa. Contra tudo lutam, contra tudo falham. Sonham deixar a vida atinada, mudar de roupa e soltar o cabelo, dormir no carro nu em pelo, pegar nas guitarras e fazer-se à estrada. Digam então olá à vida malvada. Xutem e pontapeiem os dados viciados que sustentam uma incestuosa classe governante que incha sugando o nosso sustento. Há muito que fazer em 2014.

 

(publicado a 6 Janeiro 2014)

publicado por politicadevinil às 14:23
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Madiba e as vacas sagradas

É fácil hoje elogiar Mandela e assumirmo-lo como referência incontornável do melhor que a humanidade soube e sabe produzir. E, manobrando-nos por entre adjectivos superlativos, reservados a poetas de todas as línguas, vê-lo como símbolo vivo das nossas melhores qualidades e valores, como garante da nossa solvência moral enquanto espécie, ou mesmo como pastor semi-divinizado, empurrado para assumir as culpas cristianizadas das sociedades  contemporâneas - nomeadamente as ocidentalizadas -, resguardando e protegendo-nos do nosso estado natural de mesquinhez visceral, avidez monetarista e amoralidade individual.

Não estranha por isto a romaria colorida e organizada que se prepara para congregar na África do Sul artistas e políticos, amigos e palhaços, cínicos detractores e recém-convertidos, reunidos para prestar homenagem ao vulto em que Mandela se tornou, mas que nunca procurou ser. A todos Mandela certamente receberia com agrado, com um sorriso rasgado, irónico. Afinal, fora nesse tipo de ser humano que se tornara. Que soube se tornar. Tolerante. E avesso às avarezas das politiquices, mais preocupado com os erros da vida, que com a benevolência da história, ou o seu legado. Poderia ter-se tornado numa vaca sagrada, como tantos almejam. Nunca quis. Nem alguma vez procurou intervir em fixar os seus contributos de forma a marcar a memória que outros dele possam ter, como tantos procuram (muitos com menos anos de política - e por vezes de vida - que Mandela de cárcere). Ou em apadrinhar afilhados a granel e permitir que ávidos séquitos de seguidores mantenham privilégios e existam como necrofágos agarrados à figura de um líder que sabem que jamais lhes reconheceria competência humana ou excelência comportamental. Gente medíocre, muita, de quem Mandela, estou certo, sorriria. Rasgadamente; porque soube cedo entender que a espécie humana é, como ele foi, imperfeita, vaidosa (invejosa) e temente. E porque acreditaria que, como ele, também outros poderiam reconhecer os seus defeitos e erros – os intrínsecos e os societais – e de neles intervir progressivamente, absorvendo os valores universais com que hoje, isoladamente, iconizamos Madiba.   

Esquecem alguns que Mandela proviera de um mundo avesso a conceitos como a não-discriminação, a tolerância, a igualdade ou o feminismo; modernidades hoje ainda pouco interiorizadas, infelizmente. Nascera para ser preto, racista, xenófobo. Para ser alfa-macho, marido infiel, bandido e revolucionário (ou terrorista segundo alguns). Nascera para ser ‘Nelson’, esse seu nome branco, e odiar, combater e revoltar-se contra quem diariamente o oprimia. Massivamente. Nascera para não ser tudo aquilo em que soube se tornar.

Partindo agora Mandiba, escolho recordar o caminho que soube traçar para se emancipar de pretéritos preconceitos e de férreas amarras sociais, que o poderiam ter tornado num político banal, ou mesmo nessa tão desejada e imaculada vaca sagrada. Até porque sei que esse caminho, rumo à libertação das nossas amarras, posso – e podemos todos - trilhar. 

 

(publicado a 11 Dezembro 2013)

publicado por politicadevinil às 14:22
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Ser LIVRE

As reacções corporativistas de algumas máquinas partidárias ao anúncio da criação do “LIVRE” atestam bem o incómodo que o novo partido imediatamente criou, nomeadamente em certa esquerda (BE e PCP). E demonstram também o grau de conservadorismo imobilista e enquistamento solidificado que tanto tem danificado a qualidade da nossa democracia, como desfasadas se encontram as estruturas partidárias consolidadas do que hoje se entende por participação política activa e como estas assumem o sistema representativo nacional como uma coutada privada, feudal, de acesso exclusivo a detentores de cartão,  brasão ou avental, sem que possível seja a admissão de mais sócios ou a atribuição de novos títulos.

Para mais, não entendem – ou pretendem não entender - que as características fundadoras de novos projectos políticos, hoje, pouco tem a ver com as que estiveram na génese dos partidos tradicionais, muitos provenientes de movimentos sociais já organizados (como o movimento operário, por exemplo), ou de projectos de poder bem desenhados por determinadas elites. Bem sei que ainda assistimos por essa Europa fora a concertadas tentativas de tomada do poder por parte de certas oligarquias – no nosso País verificáveis na análise de algumas movimentações intra-partidárias, facilmente detectáveis nos ditos partidos do arco governamental -,  e que os últimos 100 anos da história político-partidária mundial (ou pelo menos europeia) trataram de dotar muitos movimentos basistas de estruturas partidárias bem organizadas. Mas daí a entender-se que qualquer sistema partidário, a bem da sua estabilidade, não necessita de novos actores vai um grande passo. E o LIVRE, mesmo que contestando a certa obsessão terminológica de ser qualificado (e de se auto-qualificar) de ‘esquerda’ (uma vez que não só não concordo com tal mundivisão maniqueísta como prefiro o termo ‘progressista’), no meu entendimento, ao pretender estimular o debate político e empoderar cidadãs e cidadãos no seu relacionamento com as instituições democráticas - proporcionando-lhes um espaço transparente de participação organizada – nada mais pretende que desenvolver uma proposta alternativa e institucional que permita ultrapassar a actual inércia (e ineficácia) do nosso sistema partidário, bloqueado que se encontra pelo domínio excessivo das suas elites partidárias e pela falta de abertura real à sociedade civil, organizada ou não.

E desta forma, não só pelo seu contributo para uma maior capacitação generalizada da sociedade mas por se apresentar como um partido com clara matriz europeia e ambições de finalmente introduzir em Portugal um discurso ecologista politicamente independente, o LIVRE tem de ser entendido como uma lufada de ar fresco, necessária para ajudar a libertar algum do mofo e bafio que se sente no sistema partidário nacional, como uma expressão consciente e pro-activa que nos auxilia a recordar que a liberdade, depois de conquistada, tem de ser vivida. Sem donos ou tabus, por muito que isto custe a certas máquinas partidárias. 

 

(publicado a 26 Novembro 2013)

publicado por politicadevinil às 14:21
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O senhor que se segue

No meu último artigo realçava a importância histórica do Partido Socialista Europeu (PES) ter decidido apresentar um candidato único ao cargo de Presidente da Comissão Europeia (CE) e de o seleccionar através de um processo democrático. O acto em si não é inédito, pois já o Partido Popular Europeu (PPE) apresentara Barroso em 2009, mas o facto desta decisão permitir o envolvimento dos militantes dos partidos-membros do PES, num sistema tipo primárias, significa o advento de uma certa democraticidade ao nível partidário europeu e a abertura a milhares de militantes e simpatizantes socialistas de um método anteriormente exclusivamente reservado à elite das elites partidárias. Desta forma, Martin Schulz (o candidato designado) apresentar-se-á como candidato do PES ao lugar de Barroso palmilhando os passos tradicionais percorridos por qualquer líder nacional: defesa da sua candidatura e legitimação eleitoral por parte da sua família política, e posterior apresentação ao eleitorado. 

Complementarmente, ao desenhar um processo envolvente, participado e transparente, o PES assume claramente que a dimensão político-partidária é tão determinante como a dimensão político-institucional no processo de construção europeia. Que o tempo dos conformismos tácticos chegou ao fim (pela parte do PES) e que é imperativo – para o futuro da União – a sedimentação de um sistema partidário competitivo e ideologicamente coerente que permita, de uma vez por todas, através da injecção de conflito político, não só desmontar o mito de que a Comissão Europeia é uma entidade não-ideológica e apartidária, mas também transportar – para o patamar europeu – as dinâmicas de conflitualidade democráticas vividas nas políticas nacionais. Para mais, julgo essencial para o futuro da União que mecanismos como o que o PES agora valida sejam estendidos ao restante sistema partidário europeu, uma vez que a consolidação de um patamar partidário estável vivido comummente em 28 Estados permitirá certamente re-energizar o projecto europeu e combater eficazmente as dinâmicas nacionalistas, anti-europeístas (e mesmo autoritárias) que se têm apoderado dos discursos e práticas políticas de muitos partidos e governos europeus, da esquerda à direita.

Seria agora conveniente que os principais partidos europeus apresentassem candidatos próprios, pois fazendo-o permitiriam que, durante a campanha, se confrontassem diferentes ideias e projectos para a Europa; o que inevitavelmente capacitaria o eleitorado europeu, permitindo-lhe votar, finalmente, para eleições europeias, e não para um conjunto de eleições nacionais. Mas, a julgar pelo curso das negociações entre a CDU e o SPD, o provável é      que Merkl apoie o candidato alemão, como em 2009 Sócrates apoiou o português. E a se confirmar tal previsão, Schulz – como Barroso – será então o candidato do bloco central europeu, apenas o senhor que se segue.

 

(publicado a 11 Novembro 2013)

publicado por politicadevinil às 14:20
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A importância de um candidato

Tive a oportunidade de estar em Bruxelas na noite eleitoral de 2009, a convite do Partido Socialista Europeu (PES). Nessa noite ficou claro que uma das razões, entre várias, pela qual o eleitorado europeu não entendeu a proposta socialista fora a de que o PES não conseguira apresentar candidato/a comum que consubstanciasse tal alternativa. E pior, parte dos partidos socialistas europeus (como o nosso PS, o PSOE ou o Labor inglês, todos no governo), apoiavam mesmo o candidato da direita, Durão Barroso. Desta forma, como na altura referi, todo o trabalho desenvolvido esfumara-se em motivações nacionalistas, bacocas, pouco condizentes com o legado internacionalista e com a tradição europeísta dos socialistas europeus. Para mais, o PES apostara forte nessas eleições, construindo uma vigorosa rede de activistas, envolvendo académicos, sindicalistas, políticos e activistas na elaboração de um manifesto transversal, e apostando num conjunto de propostas-chave que retirassem a Europa da já sentida crise (de onde se realçava, por exemplo, a proposta de taxar as transações financeiras internacionais). Ou seja, concentrara-se esforço na construção de uma boa máquina, para a qual não só não havia consenso no piloto como parte da equipa escolhera publicamente “o outro” para manegar os destinos da União. E perdera-se uma excelente oportunidade para desenvolver o sistema partidário europeu, peça essencial para a consolidação de práticas democráticas e transparentes ao nível da União. Entretanto, o PES rapidamente anunciou (em Praga, 2009) que iria apresentar um candidato único a 2014, decidindo posteriormente que o mesmo seria eleito num processo democrático, plural e participativo. Bati-me, na altura, com muitos activistas, para a promoção de primárias internas, de forma a potenciar o debate no seio da família socialista e a envolver militantes e políticos na defesa de um projecto europeu comum que envolvesse um grupo alargado de actores (de activistas a académicos e sindicalistas) e não apenas a tradicional partidarite europeia, fixamente estagnada em Bruxelas. Esta proposta foi aceite, e nos próximos meses a Europa assistirá ao processo interno de selecção do candidato do PES a Presidente da Comissão (no terreno já se encontra Martin Schulz, actual presidente do Parlamento Europeu). Trata-se, a meu ver, de um importante passo para a consolidação do patamar político europeu como uma extensão da política nacional, um momento importante para a disseminação de prácticas democráticas à complexa rede institucional europeia, e uma oportunidade para pedir contas a quem desastrosamente geriu a União nestes cinco anos. Para mais, apresentando um candidato próprio, e um programa comum defendido em simultâneo em todos os países da UE, os socialistas europeus forçarão a que, finalmente, exista um debate sério e conflituoso sobre os destinos da União (e sem conflito não existe política), obrigando a que se rompa com a letargia consensual onde encalhou a UE e se debatam e apresentem propostas alternativas concretas à política de austeridade fanaticamente seguida por Bruxelas (e Berlim). E bem precisamos deste debate.

 

(publicado a 29 Outubro 2013)

 

 

publicado por politicadevinil às 14:20
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Pré-autoritarismo

Qualquer democracia equilibrada assume as noções de ‘Accountability’ e ‘checks & balances’ como essenciais para a estabilidade e equidade das suas instituições. Quer isto dizer que nenhum governo está isento de ser (politicamente) responsabilizado, nem poderá concentrar em si mesmo, totalmente, as áreas da intervenção legislativa, executiva e judicial, de forma a ausentar-se do escrutino e validação intra-institucional.

Ora as principais respostas (políticas) à crise, junto com as características não-formais e não democráticas da complexa rede inter-institucional que caracteriza a actual configuração do sistema capitalista global (vulgo globalização), têm procurado romper este equilíbrio, pois a reboque da desculpa da imperativa necessidade de garantir aos governos nacionais totais capacidades governativas e sumidade na actuação governamental surge o discurso da excecionalidade, quase que diria, supra-constitucional, que justifica o contorne de todo e qualquer preceito que impeça, ou bloqueie, a implementação imediata das indicações recebidas.

É, admito, uma forma inteligente e sofisticada de procurar circum-navegar a esperada contestação política e social (e institucional) às medidas económico-financeiras que procuram - com a destruição do modelo social europeu, o desmantelamento do Estado social e a liberalização total do mercado de trabalho - criar o melhor habitat possível para “triunfo final” do neo-liberalismo mundial. Ou, se quiserem, apenas a face visível da recente transmutação do sistema capitalista mundial, quando confrontado com a debacle de 2008 e a (falhada) insurreição social global que se seguiu. E o que se passa em Portugal, mais não é que uma extensão de uma estratégia global de dominação político-ideológica, temperada com a insensibilidade e laxismo social deste Governo.

O problema é que esta estratégia tem tido, nestes anos, um alcance global e totalitário, procurando ser aplicada de forma irreversível, duradoura e, preferencialmente, impune (e lucrativa) para os seus executantes. Estratégia que, para efeitos da sua concretização, tem mudado governos aqui e ali, desenhando Troikas e balTroikas (com impactos sociais catastróficos), mandado às malvas qualquer teoria política que provoque estorvo aos seus desígnios.

Vivemos em tempos pré-autoritários, de deslocação das premissas democráticas para imperativos de controlo financeiro-institucionais, não validadas ou produtores de qualquer bem-estar social, missão inalienável de todo o sistema político. De pouco vale atravessarmos pontes ou sonharmos em julgamentos ad-hocs, pois desmontar tal estratégia implica um articulado esforço conjunto com impacto (pelo menos) europeu, articular soluções multi-niveladas - e estendidas no espectro político - que congreguem as alternativas à crise em torno de um programa mínimo. Mas por enquanto estas alternativas – já existentes – teimam mais em agiram isoladamente, preocupadas com capitalizações e protagonismos individuais (ou colectivos), que contribuírem para qualquer solução fora, ou complementar, ao sistema onde elas mesmo prosperam.

 

(publicado a 15 Outubro 2013)

publicado por politicadevinil às 14:19
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Rescaldo embotelhado

Mais que ser sujeito a análises eleitorais simplistas e aglutinadoras, preocupadas em apresentar, de forma adaptada a formatos televisivos, macro-sínteses de vencedores e vencidos, os resultados do acto eleitoral de Domingo findo merecem uma reflexão subtextual mais refinada e atenta.

Assim, quem se apresse em apenas ver uma derrota clara do Governo ou uma estrondosa vitória do PS, corre não só o risco de estar meio-certo (pois claramente o PS não obteve uma vitória estrondosa) como de não entender a natureza das possíveis transformações que muito em breve poderão ocorrer no sistema político-partidário português fruto do papel das candidaturas independentes e do impacto que estas podem ter na relação entre as estruturas partidárias de base (maioritariamente construídas sob dependência autárquica) e as cúpulas partidárias.   

Claro que não procuro menorizar as apreciações nacionais: derrota humilhante em toda a linha do PSD e do Governo, importante vitória global do PS – e de António José Seguro -, impressionante ‘come-back’ a Sul da CDU, debacle do BE, «penta» do CDS, fim do «Rei Momo», interessante reacção tripeira e, naturalmente, a entronização de António Costa como figura-proa da política nacional, arregimentando a Capital atrás da sua maioria absoluta. Desta apreciação se entende que, se algo de novo trouxe Domingo à política nacional foi que, à esquerda, a relação entre as  alternativas ao Governo complexificou-se, essencialmente em virtude do PS não ter conseguido capitalizar o desmoronamento do PSD (para quem perde Braga e Guarda e ganha somente Coimbra), ter perdido importantes municípios urbanos para a CDU (Loures, Beja ou Évora) e não ter conseguido ganhar Oeiras, Faro ou Porto. Para mais, como foi Costa o «Homem da noite», se festa brava houve em Lisboa, foi no Altis e não no Lago do Rato...

Em todo o caso, mais significativo que estas apreciações é antever o impacto do escrutínio nas estruturas dos principais partidos, nomeadamente no PSD e no PS. E isto porque, como já aqui escrevi, o poder de alguns barões (e das estruturas que controlam), apontado como um dos principais obstáculos à abertura e renovação dos quadros partidários, inevitavelmente enfraquecerá, em virtude do transporte de tais estruturas (e pessoal) para as candidaturas (e executivos) independentes. Se a este fenómeno acrescentarmos a saída de cena de alguns ‘dinossauros’ – e seus caciques – inevitavelmente concluiremos que em muitas concelhias e distritais/federações algo mudará, o que poderá colocar em cheque a cristalizada hierarquização entre os eleitos das sedes nacionais e os sindicatos de voto controlados por tais barões, antecipando-se novos desenhos intra-partidários. E decerto que este movimento será forte no PSD (menos no PS). Resta saber se esta oportunidade potenciará um aumento na qualidade do nosso sistema partidário ou se, pelo contrário, e como em tantas tantas vezes, mudar-se-ão rótulos para se preservarem garrafas. 

 

(publicado a 1 de Outubro 2013)

publicado por politicadevinil às 14:18
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O senhor cacique

Em Dezembro de 1976 o País finalmente teve a oportunidade de se envolver activamente nos processos democráticos jurados por Abril, e escolher de entre milhares de candidatos os seus responsáveis políticos municipais. Até então a prometida participação popular tinha-se circunscrito à eleição de Ramalho Eanes e à escolha de deputado, criteriosamente escolhidos pelos directórios partidários, para a Constituinte e para a primeira Assembleia legislativa.

Ao se abeirar do poder local, a Revolução completava-se. Em causa já não estariam as pedras basilares do sistema, rapidamente absorvidas pelas principais elites militares e partidárias, mas antes a escolha de políticos e políticas de proximidade, mais preocupadas com as rotinas das populações que com os macro-desígnios da grande política, reservada à nata da intelectualidade partidária reunida em Lisboa.

Esse Dezembro proporcionaria ainda o primeiro verdadeiro teste à capacidade organizativa do imberbe sistema partidário saído da Revolução, pois se até à data os principais partidos tinham-se preocupado– e bem – com a gestão do processo revolucionário em curso e com a consolidação das suas elites nacionais, agora seriam obrigados a criar estruturas locais que garantissem capacidade de intervenção política de alcance municipal. Foi este o momento primordial para a existência de centenas de pequenas estruturas partidárias.

Em muitos casos os partidos organizaram-se em torno de elites locais (muitas já dominantes do respectivo aparelho administrativo durante o Estado Novo), noutros num processo espontâneo, onde ‘quem aparecia ia para a lista’, tornando-se candidato, alguns eleitos, mesmo como presidentes de Junta ou de Câmara. Investidos de nova roupagem, muitos desses eleitos rapidamente entenderiam que os recursos à sua disposição lhe iriam permitir fazer vida como autarca. Ter e dar emprego. E que, chefiando os processos de institucionalização do partido, inscrevendo militantes e liderando secções e concelhias, calmamente construiriam em seu redor as máquinas eleitorais que garantissem a desejada reeleição.

Com o passar dos anos, estas redes alargar-se-iam das secções às concelhias, das concelhias às distritais (ou federações), e destas às estruturas nacionais, ameaçando e confrontando – ironicamente – a antiga hierarquia partidária. Em breve, o País encontrava-se repleto de pequenos condes e barões, alguns marqueses e poucos duques, estrutura nobiliárquica que acrescentava à ambição de autarca a de deputado ou de, quem sabe, ministro, num primeiro momento, ou de gestor em empresas públicas, depois. Ambições garantidas, naturalmente, pelo controlo férreo das estruturas partidárias. 

Assim, no mesmo dia ambicionado para nos apoderar democraticamente e de consolidar a capacidade da intervenção cívica de índole municipalista, foram depositadas as bases que hoje armadilham a nossa democracia, e um dos cancros do nosso sistema partidário: o cacique local, esse símbolo literário da permanente incapacidade lusa de se governar. 

 

(publicado a 17 Setembro 2013)

publicado por politicadevinil às 14:17
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Democracia enxuta

Sem dúvida que uma das mais desbocadas tiradas da recente silly season terá sido a que Luís Filipe Menezes proferiu para justificar o cancelamento do concerto de Tony Carreira agendado para inaugurar – com a pompa e circunstância que eleições à porta merecem - o pavilhão municipal de Oliveira do Douro. Neste acto de desplante público de usufruto simultâneo da sua dupla capacidade de Presidente em exercício da Câmara Municipal de Gaia e de candidato à Câmara Municipal do Porto, Filipe Menezes descaradamente considerou não ser «eticamente enxuto» patrocinar tal evento em vésperas de eleições municipais, não fosse o povo confundir o trabalho da autarquia com a actividade do candidato (à Câmara do outro lado do rio).

Não fosse esta frase proferida por um dos políticos mais ‘molhados’ da nossa praça, um dos tais que colocou a ética na gaveta quando – circunvagando deliberadamente a Lei -  decidiu concorrer a mais um mandato como Presidente de Câmara e até poderíamos estar perante um caso digno de registo. Mas como infelizmente o intuito de tal intervenção foi de exclusivo alcance eleitoralista, as palavras de Menezes não só manifestam o total desprezo e desdém que o ex-líder do PSD tem para com o seu eleitorado mas recordam-nos que, de facto, a qualidade da nossa democracia, e em especial do nosso sistema partidário, se encontra muito debilitada.

Aliás, tais palavras de gozo não se encontram muito distantes das decretadas pelo Primeiro-Ministro no seu mais recente ataque ao Tribunal Constitucional, pois o que o actual líder do PSD procurou – ao apelar ao «bom senso» dos seus juízes - não foi mais que colocar-se, enxuto, num patamar ético superior em relação a quem procura, apenas, verificar que as leis emanadas dos principais órgãos legislativos são validadas pelo nosso texto constitucional. Bem sabemos que Passos Coelho – decerto convencido de todo o seu bom senso quando decidiu apresentar mais um diploma que foge à boa apreciação da Constituição – entende estar no nosso texto fundamental o seu principal adversário à desejada reforma (leia-se destruição) do Estado. Já o referiu, aliás, diversas vezes. Mas como sempre que um diploma emanado de São Bento é chumbado pelo Tribunal Constitucional o Governo responde com uma birra de mais medidas de austeridade, honestamente que começo a pensar se tal não será apenas uma estratégia para se justificarem mais cortes e/ou impostos, e a reboque atingir-se não só os fundamentos constitucionais da República como apresentar os sociais-democratas como os líderes morais e éticos da tal ‘Nova República’ (liberal) que procuram promover.

E se entendo que é necessário um alargado e qualificado debate sobre a Constituição, preferiria que o mesmo a enxugasse não dos ‘vícios marxistas’ que tanto temem os nossos (Estado-dependentes) liberais, mas da excessiva dependência de um sistema partidário caduco e ‘molhadinho’ até à ponta dos cabelos. Pois necessitamos de uma democracia enxuta. Enxuta de muitos dos nossos políticos. 

 

(publicado a 3 de Setembro 2013)

publicado por politicadevinil às 14:14
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Quartel-General... no Caldas.

Como muitos antecipavam, a montanha-mor do desenho institucional luso, depois de em si concentrar todos os focos e atenções do sistema, e de parar a Pátria durante quase um mês, pariu um rato austero e mirradinho, bem ao jeito do estado actual do País e condizente – aliás - com o estilo e marca da Presidência da República, como exercida pelo economista de Boliqueime. Assim que as modas deste cantinho lusitano, apresentadas em antecipação da nova estação, pouco inovam e nada renovam, deixando antes tudo como dantes, com Quartel-General... no Largo do Caldas, centro da nova corte do prometido ‘novo ciclo’.

Mais uma farsa mal montada por Belém, portanto, que esfumou a pouca credibilidade que detinha a Presidência, reduzindo-a a um órgão inactivo não-beligerante de tendência governamental; pois apesar de não ser esta a primeira vez que Cavaco intervêm (sempre tarde e a más horas) no sentido de aconselhar o Governo, desta feita não só desconsiderou completamente o seu Primeiro-Ministro como abandonou os seus tradicionais conselhos descomprometidos, colocando preto-no-branco um conjunto de ameaças muito concretas caso os seus desejos não fossem acatados. Desta forma, ao se revelarem infrutíferas as negociações entre PSD, CDS e PS para um governo de salvação nacional, restava apenas ao Presidente que tivesse a coragem de fazer cumprir a sua ameaça e apresentar – perante o Parlamento – um governo de sua iniciativa. Não o fez, preferindo antes, como Pilatos, encolher ombros, lavar as mãos e aceitar o que antes tão ferozmente tinha rejeitado. 

Entretanto, como em qualquer boa farsa, o País assistiu a um conjunto de manobras de bastidores que levaram a que o bobo de serviço – sempre preocupado com o seu próximo malabarismo - e instigador principal da pequena revolta que levara à intervenção do Presidente assumisse o papel de fidalgo-mor, colocando minuciosamente as peças necessárias para a governação de facto da Nação, ainda que escudado na estranha figura de vice-Primeiro Ministro (pois parece que ainda habita em São Bento um outro senhor). Por outro lado esquivou-se de boa o líder do principal partido da oposição, uma vez nunca esteve verdadeiramente em causa qualquer participação do PS em hipotético governo de salvação nacional. E como bónus, Seguro adquiriu o direito a guardar o joker a si atribuído pela Presidência, carta que seguramente utilizará após a reentre eleitoral de Setembro, na já anunciada convenção ‘Novo Rumo’ (evento que espero que ombreie com os ‘Estados Gerais’ e com as ‘Novas Fronteiras’ na capacidade de captação de novas ideias e novos protagonistas para a área do PS).

Feitas as contas então, e depois de confirmado que a figura presidencial é hoje de uma insignificância lamentável, Passos Coelho lá conseguiu levar a sua adiante, mantendo o essencial como dantes. O plano de empobrecimento geral do País continuará assim, agora num novo ciclo.  

 

(publicado a 31 Julho 2013)

publicado por politicadevinil às 14:08
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