Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2013

Longa se torna a espera

“Longa se torna a espera” e “à terceira é de vez” são expressões jocosamente utilizadas para entender a persistência (e teimosia política) de dois dos mais carismáticos presidentes franceses: François Mitterrand e Jacques Chirac; pois quer o socialista como o antigo ‘maîre de Paris’ concorreram e perderam dois actos eleitorais (Mitterrand em 1965 e 1974 e Chirac em 1981 e 1988) antes de escolherem a mobília da suite presidencial do Palácio do Eliseu, esperando respectivamente 16 e 14 anos para concretizar almejado sonho. Esperar, e saber gerir uma carreira política de longo prazo, tornou-se qualidade decisiva por terras gaulesas, até Sarkozy ter perdido a reeleição de 2012.

Serve esta curta introdução para contextualizar os recentes eventos do panorama político-partidário português, entretido esta semana com um debate estéril e quasi-esotérico sobre a noção da "pressa". É que parece que para alguns ex-dirigentes socialistas, de repente, tudo se tornou urgente: um novo congresso partidário, um novo ocupante para o Palácio Marquês da Praia, cito Largo do Rato, e finalmente um novo titular para a chefia do governo.

Verdade que tendo em conta o imediatismo informativo, o impacto diário, 24/7, dos eventos políticos e o encurtamento dos ciclos político-eleitorais, o supra citado calvário francês tem cada vez menos aderência ao quotidiano corrosivo das democracias contemporâneas, onde as esperas são cada vez mais curtas. Também é verdade que para o bem estar colectivo dos residentes em território português seria conveniente que este governo (e esta ‘troika') abandonasse rapidamente o palacete de São Bento. O problema, a meu ver, prende-se com a forma de forçar este abandono, como aliás escrevia em artigo anterior, e com a estratégia desenhada pelas altas esferas socialistas - quer as pertencentes a esta direcção como outras - em se apresentarem como alternativa de poder. 

Assim, se parte da estratégia de quem agora se esgana por forçar um congresso no PS (aliás já previsto), passa por colocar António Costa na liderança, o resultado não podia ser mais contraproducente, pois esta excessiva aceleração do momento político apenas coloca o edil lisboeta num beco sem saída: se houver congresso antes das autárquicas ou vai a votos e corre sério risco de perder as eleições em Lisboa para Fernando Seara (que, aliás, já denunciou a situação), ou então desiste da (última?) oportunidade de ser líder do PS, deixando caminho aberto para Seguro se apresentar a eleições contra Passos Coelho. Ironicamente, estes gritos mudos beneficiam sempre o actual líder do PS, que tem não só a oportunidade de liquidar partidariamente António Costa, como ainda de beneficiar de um bem sucedido congresso electivo, na antecâmera de esperada estrondosa vitória eleitoral (momento potencialmente catalisador para Cavaco Silva, sentindo o pulsar do País, demitir o Governo e marcar eleições antecipadas).

A não ser que a estratégia seja outra, e passe por afastar Costa definitivamente do Largo do Rato, colocando-o mais perto de Belém, ou como candidato socialista para 2016 ou como putativo primeiro-ministro de um governo de iniciativa presidencial. Em todo o caso, quer sejamos gauleses ou lusos, saber esperar, não ter pressa, e saber quando actuar, sempre foi uma qualidade admirada em todo o bom político.


José Reis Santos, Historiador

publicado por politicadevinil às 15:03
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Terça-feira, 15 de Janeiro de 2013

Túnel

Virado mais um ano, justo o da fortuna ou do azar, verificamos que os projectos do Governo em desmantelar as bases do Estado-social português construído nos últimos 30 anos, e de transformar o País num Estado ‘low cost’ atraente ao lucro da alta finança internacional, correm sérios riscos de passaram de conceito a realidade irreversível.

Bem sei que por circunstâncias próprias do nosso sistema político-partidário, elegemos para nos governar um bando de miúdos traquinas, sem qualquer experiência política relevante, qualidades intelectuais ímpares ou competências de gestão governativa. Dizem alguns que tal é consequente da excessiva partidarização da vida política contemporânea, da profissionalização resultante da consolidação institucional dos sistemas democráticos, uma inevitabilidade. Até sou capaz de concordar que, resultante da estabilização institucional e democrática, a vida política se torne mais rotineira e burocratizada, mais técnica e profissionalizada, logo menos excepcional e desafiadora, intelectualmente menos atraente e recompensadora. Mas o que não consigo admitir, o que não concebo, é que exactamente os que se dizem produto desta profissionalização não ostentem qualidades ímpares que os apresentem como excepcionais, como dignos de gerirem os destinos colectivos de 10 milhões de pessoas.

Assim, vemos hoje nas lapelas dos (novos) blazers dos miúdos que há 20 anos eram chutados para as 5ª filas parlamentares, os ‘pins' do escudo de Portugal, uma distinção já não legitimada pelo respeito social e popular, mas uma marca de arrependimento eleitoral e símbolo para a reflecção institucional, pois temos de saber encontrar forma de não só impedir que se perpectue o laxismo constitucional e a ilegalidade social e eleitoral deste Governo, como saber construir uma fórmula institucional que impeça que no futuro um escasso triunfo eleitoral se transforme num projecto totalitário de transformação integral, não sufragada e fora-da-lei (constitucional), da realidade nacional, caminho que o senhor Passos Coelho tem percorrido.

O problema prende-se, em teoria, com a relação entre o desenho constitucional e a natureza dos titulares dos cargos da hierarquia institucional. Assim, quer Cavaco como Portas detêm o poder de dar por terminada a experiência laboratorial em curso em Portugal; mas não intervêm com esse desiderato, curiosamente demonstrando um claro desrespeito pelo sentido de Estado, por razões incógnitas ou anódinas (Cavaco) e por um tacticismo político e invulgar preguiça em se levantar das cadeiras do poder (Portas).

Assim, que fazer? Continuar com o protesto social? Mais e mais manifestações? Esperar por novas cargas policiais e pela instauração definitiva de um estado securitário em Portugal, com novos bufos e uma PIDE 2.0? Ou respeitar o ciclo eleitoral, construindo uma alternativa para 2015? Em teoria, e como institucionalista, tenderia em escolher a solução que respeitasse os trâmites estabelecidos no nosso desenho institucional, não tivesse este Governo rasgado essas mesmas estipulações e nos tivesse colocado num túnel sem saída, sem lâmpadas ou lampiões que iluminem qualquer esperança, e onde o El Dourado é prometido apenas para os poucos que já tudo têm.

José Reis Santos, Historiador

publicado por politicadevinil às 15:04
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Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2013

Às portas de Berlim.

A História é basta em exemplos de experimentalismos sociais, geralmente de bom e exclusivo uso para alguma elite dominante (qualquer ela que seja) e em malefício generalizado da população. Povos, países e  civilizações, têm servido de laboratórios para a imaginação e criatividade de generais e políticos, líderes e agentes económicos, que, a mando próprio ou dirigidos por deuses vingadores ou ideologias perversas, procuram colonizar e civilizar vencidos e conquistados, impondo novas narrativas tatuadas com tinta dos aparelhos de repressão desenhados de acordo com as ambições dos novos donos. «Dos fracos não reza a história», sintetiza esta malaise humana, esta vontade de querer dominar pela força das armas ou da política, por imposição religiosa ou ideológica ou através da supremacia economia. Tudo por mais um punhado de terras, de Igrejas ou influência político-cultural, por mais rendas e domínio económico-financeiro, por mais autoridade e poder.

Muitas destas experiências necessitaram de ser testadas em pequena escala, verificados os seus pressupostos e aferidas as suas capacidades de aplicação global, escolhendo-se a dedo os sujeitos válidos para estes testes de ensaio de acordo com a sua (in)capacidade de apresentar resistência. A História europeia está pejada de experiências laboratoriais. Hitler, por exemplo, cinicamente testou os avanços tecnológicos da industria bélica Nazi durante a Guerra Civil espanhola, utilizando Guernica como miniatura de Varsóvia, Roterdão ou Londres; enquanto Estaline, outro arquétipo do moderno Engenheiro de Almas, tranquilamente moldou a sua URSS sob batuta meticulosa do Gulag, impondo a regra e esquadro modelos políticos socialmente esdrúxulos, válidos apenas nos desenhos teóricos triunfalmente expostos nas paredes cruas do Kremlin.

Infelizmente o plateau europeu continua a apresentar, em 2012, uma mise-en-scène experimental, desta feita a comando das ambições de predomínio global das forças mudas do capitalismo financeiro internacional. Como no passado, novos encapuçados selecionam a dedo um par de países para servirem de balão de ensaio, com o objectivo de testarem laboratorialmente a capacidade das populações autóctones em assimilarem os pressupostos teóricos da próxima fase do capitalismo internacional. Mas hoje a Europa, ou a União, está preparada institucionalmente para lidar com tais ambições desmedidas, bastando que intervenha concertadamente sob os auspícios de uma visão alternativa. Em teoria não é difícil alterar o curso das políticas de austeridade que diariamente atiram milhares de concidadãos europeus para níveis de miséria e pobreza inimagináveis há cinco anos. Bastaria que se alterasse a liderança e o programa político do país-charneira da União (Alemanha), primeiro, e que depois se elegesse um Parlamento Europeu e um Presidente da Comissão de perfil e programa progressista, que recolocasse o centro da actividade política nas pessoas, retirando-o dos mercados incógnitos e das folhas binárias de Excel.

O problema encontra-se na teimosia e incapacidade da maioria dos políticos europeus em abraçarem o ideal do projecto da União como mais que uma mera fórmula teórica de cooperação organizada entre Estados soberanos, em saírem dos seus condicionalismos nacionais e entenderem o patamar europeu como complementar às intervenções locais, regionais e nacionais, e em politizarem os assuntos da União seguindo alinhamentos definidos e partilhados entre partidos-irmãos da mesma orientação político-ideológica. Ora apesar de mais de 50 anos de integração europeia e sob regência do Tratado de Lisboa (que reforça, ainda que incompletamente, o carácter democrático das instituições europeias), verificamos que tal realidade encontra-se distante, como se afere pelo apoio de diversos partidos socialistas ao candidato apresentado pelo PPE às eleições europeias de 2009 (Durão Barroso), ou na incapacidade do SPD alemão (e do seu candidato a chanceler, Peer Steinbrück) em se desassociar do caminho da austeridade cega imposta pela chancelarina Merkel.

Assim entramos em 2013, ano decisivo e antecâmera do próximo acto eleitoral europeu sem se acreditar que sejam substancialmente alteradas as ambições de domínio global dos que acreditam que é através da redefinição do papel do Estado nas sociedades contemporâneas, da sua redução a níveis quase simbólicos, do desmantelamento do Estado-social e da consequente transformação do espaço europeu num conjunto de Estados low cost (atraentes condomínios ao dispor do lucro da alta finança) que se constroem sociedades modernas justas, tolerantes e igualitárias. Como no passado, tudo por mais um punhado de terras e rendas, por mais autoridade e poder. Mas a História não se repete, ao contrário do dizer popular; e os fracos de hoje são os mais de 300 milhões de europeus que diariamente perdem qualidade de vida.

E se as portas de Berlim assistiram, há mais de 60 anos, ao confronto final entre dois dos cavaleiros do apocalipse, as mesmas ruas que ladeiam a Brandenburger Tor recuperarão a atenção e os holofotes da Europa, desta feita não provenientes das anti-aéreas ou das opticas dos T-34, mas da esperança dos que acreditam que é tempo de terminar com os laboratórios criativos patrocinados por mãos (invisíveis) que se querem conhecidas e responsabilizadas. Terão, no próximo ano, o SPD alemão e Peer Steinbrück a oportunidade de escolherem uma narrativa alternativa mais condizente com a Europa que desejamos, e espero que o partido de Friedrich Ebert, Willy Brandt ou Helmut Schmidt faça a tempo esta demarche. Já em 2014 todos poderemos escolher a tinta que – espero – tatuará uma nova fase, não do capitalismo financeiro internacional, mas da história do progresso social europeu.

 

(artigo publicado em edição especial do Diário Económico, em Dezembro de 2012)  

publicado por politicadevinil às 15:48
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Portas fechadas

Para espanto de alguns, Paulo Portas, o segundo número dois da hierarquia governamental, expressou o seu desacordo tácito em relação à forma como foi negociado o OE entre os parceiros da coligação, reclamando com despudor eunuco que o CDS não teria sido suficientemente ouvido na elaboração de tal documento primordial. Estranham tais declarações da parte de um político tão experiente como Portas, que mais não fez que assumir perante o país a total irrelevância política do seu partido - que se resume a uma extensão parlamentar muda do PSD -, e de si mesmo, hoje um político-sombra sem peso ou palavra que dizer.

Claro que as suas intensões devem ser entendidas à luz de quem procura, a todo o custo, manter a percepção de que ainda conserva alguma relevância política e em sustentar a ilusão de que o CDS é um parceiro governamental de pleno direito (e respeitado por isso), o que tem sido consecutivamente provado não ser verdade. Mas tais declarações são graves na medida em que retractam causticamente como o PSD detém uma posição hegemónica avassaladora no seio da coligação e como – num momento de extrema gravidade social na vida colectiva do nosso país – assistimos à incapacidade de travar a ambição laxista do nosso primeiro-ministro em transformar Portugal num país ‘low cost’, a preto-e-branco, de uso e usufruto exclusivo de agentes privados (internacionais), que certamente se deleitarão com as oportunidades de negócios de um território (seria quase ridículo continuar a chamá-lo país) onde os 2 milhões de portugueses que vivem no limiar da pobreza certamente agradecerão toda e qualquer migalha deixada como gorjeta barata.

Ficámos ainda a saber que, depois de confirmado o estado anémico de alienação política do Presidente da República, de comprovada a não existência do CDS e verificada a inoperância da oposição (a da rua e a do Parlamento), Passos Coelho não só tem rédea solta para prosseguir com as suas intensões economicamente dementes, como depara-se perante um caminho institucionalmente desimpedido para proceder à refundação do Estado como tiranicamente o entender. Ora considerando que os sistemas democráticos modernos têm de conceber mecanismos de pesos e contrapesos eficazes que impossibilitem que déspotas tomem conta do Estado (e o nosso desenho constitucional prevê um bom par deles - a começar pela possibilidade do Presidente actuar mais incisivamente), Portas abdicou da possibilidade de ser ele o contra-freio das ambições desmedidas (e eleitoralmente ilegais) de Passos Coelho, remetendo - depois de confirmada a anuência presidencial a este OE - para referências anacrónicas a capacidade de pôr termo a este Governo socialmente pária: “Quando o governo viola os direitos do povo, a insurreição é, para o povo e para cada parcela do povo, o mais sagrado dos direitos e o mais indispensável dos deveres” (Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão adjacente ao acto constitucional francês de 24 de Junho de 1793, artigo 35º).

 

(artigo publicado a 18 de Dezembro de 2012)

publicado por politicadevinil às 15:47
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TINA

“There is no alternative” (TINA) é a ideia-síntese do actual discurso liberal europeu, cujo propósito é tornar inevitável o desmantelamento do Estado Social e implementar modelos teóricos (ultra) liberais que entendem que as sociedades humanas se devem organizar em Estados ‘Low Cost’ de soberania relativa, deixando aos privados, aos mercados internacionais e às suas elites oligarcas a definição e gestão do bem-estar colectivo. Esta ideia, repetida à exaustão e fortemente apoiada pelos canais comunicativos controlados pelos grandes conglomerados económicos, domina totalmente a narrativa institucional europeia, e serve de base legitimadora para as pretensões do governo português em refundar o Estado (e a República), procurando reduzi-lo, ao que parece, apenas às funções de segurança e representação externa. É ainda esta ‘TINA’ que tem justificado a necessidade divina de manter o rumo suicidário da austeridade portuguesa, agora homenageada num OE moralmente ilegal e eleitoralmente nulo que consagra na essência a precariedade e a miséria social como o centro das políticas governativas. Mas será que não existem alternativas? Claro que existem, várias, quer ao nível nacional como no patamar europeu.

Em primeiro lugar talvez fosse conveniente entender o quanto antes de que a política actual não se restringe ao que se passa nas ruas e nos edifícios institucionais de São Bento. Neste sentido, apesar da importância decisiva da intervenção governativa no espaço nacional e da necessidade em mudar o quanto antes o Governo, a verdade é que o acto eleitoral decisivo para alterar a direcção desta Europa será 2014, quando todos elegeremos o novo líder da Comissão Europeia e o Parlamento Europeu. Depois talvez fosse ainda mais essencial entendermos muito bem a natureza da nossa dívida pública, sabermos o que estamos a pagar, a quem e porquê. E estranha que o trabalho da auditoria cidadã à dívida (portuguesa) sofra de parco apoio político-partidário e de pouca atenção mediática. Finalmente, também seria importante desmontar o discurso da falta de alternativas às soluções da coligação PSD-CDS (e da Comissão-Barroso), bastando para tal consultar os sites do PS ou do PSE para sermos confrontados com diversas propostas concretas e de aplicação imediata.  

Despida a TINA, tem faltado no patamar nacional a construção de um consenso político-partidário (e social) alargado que permita a substituição do XIX Governo, razão que talvez justifique a não intervenção de Cavaco. E a julgar pelas recentes intervenções do espaço político à esquerda do PS, a alternativa governativa passa cada vez mais por um governo maioritário liderado pelos socialistas ou por uma futura coligação PS-CDS, cenários que pouco contribuirão para a alteração do paradigma governativo. Assim, e infelizmente, resta-nos menosprezar (em certa medida) a politiquice nacional e concentrarmo-nos na promoção de uma coligação progressista europeia que consiga, em 2014, eleger um Presidente da Comissão que definitivamente mande esta TINA às malvas. 

 

(artigo publicado a 4 de Dezembro de 2012)

publicado por politicadevinil às 15:46
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A primeira pedra

Os episódios da última semana transportaram-me para um país que julgava ido, ultrapassado, retido no tempo em que Portugal debatia as características da sua consolidação democrática. Recordaram-me as tardes e noites passadas no saudoso Estádio da Luz, quando era delicatessen obrigatória de qualquer menu de derby nacional assistirmos ou sermos envolvidos em deprimentes e desnecessários confrontos entre um par de hooligans bem identificados e a polícia, primeiro, e a polícia e toda a gente (novos, velhos, mulheres ou crianças), depois. Na altura os estádios eram albergues baratos para arruaceiros de toda a espécie que, organizados ou não, e escondidos nas malhas associativas, provocavam a policia e os adeptos adversários até à chegada pontual do esperado arraial de pancadaria.

Nas dezenas de confrontos a que assisti nunca soube quem tinha atirado a primeira pedra, e a bem da verdade em muitas ocasiões era a própria instituição responsável pela nossa segurança pública quem provocava a oportunidade para libertar o açaime dos agentes do corpo de intervenção (os famosos CI’s). Os mesmos CI’s que encontrávamos, enjaulados em carrinhas mal disfarçadas, pelas vielas do Cais do Sodré e do Bairro Alto sedentos por aliviar a adrenalina sobre um par de maduros bem bebidos ou meia dúzia de miúdos charrados, que patrulhavam as ruas do Algarve arriando porrada em bifes distraídos e que mais tarde transformaram o buzinão da Ponte 25 de Abril num amuse-bouche salazarista. Essa era a polícia da minha meninice, a polícia cavaquista: mal formada, mal comandada e mal preparada para existir num regime democrático; sempre disposta a bater primeiro, indiscriminadamente, e apurar as causas para tal intervenção depois.

Passaram-se os anos e melhorou-se substancialmente a relação entre a população e as forças policiais. Formaram-se novos quadros, desenvolveram-se novas estratégias de intervenção policial e maturaram-se tácticas de intervenção cívica que transformaram a PSP em instituição friendly, tranquila e (quase) progressista. Mas, como mudam-se os tempos (e mudam-se as vontades), desde que o XIX governo tomou posse que temos assistido a um perigoso retrocesso na relação entre as forças de segurança e os cidadãos que juraram proteger. Hoje, refém de um governo (e de um Ministro) que entende que a noção de ordem pública passa por limpar as ruas à bastonada, a PSP deixou de velar pela nossa segurança colectiva, transformando-se de uma força de progresso em instituição que motiva a desconfiança e o temor.

Assim, pouco importa quem nesta famigerada quarta-feira atirou a primeira pedra, porque a origem da violência tem cara conhecida e morada registada: proveio de São Bento e do gabinete do MAI. E quando um governo depende da violência para dissipar o protesto popular, quando legitima o seu poder através do abuso do monopólio da violência concentrado nas instituições que comanda, é porque se desligou da função de governar em prol da sua população. E em democracia este tipo de governos (já) não são tolerados.

 

(artigo publicado a 20 de Novembro de 2012)

publicado por politicadevinil às 15:45
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Travesti de Carmona?

Mesmo os mais desatentos ao desenrolar dos factos políticos nacionais já terão entendido que o discurso da necessidade de impor a ferro-e-fogo mais medidas de austeridade (que tem apenas colocado o país em níveis de pobreza inimagináveis, nada resolvendo o problema do deficit) serve afinal apenas como cortina de fumo para as verdadeiras intenções de alguns senhores deste XIX governo e respectivos mentores ideológicos (importados). E estas, totalmente escondidas do escrutínio eleitoral, passam por desmantelar o Estado (social) como o conhecemos e alterar a Constituição da República de forma a consagrar os princípios liberais que dizem (agora) defender. Pretende assim Passos Coelho tornar Portugal num país ´Low Cost’, na feliz expressão de António José Seguro, reservado para uso e abuso de abastados apátridas e recepção de camionetas repletas de turistas fatiminianos.  

Ora em teoria nada tenho contra um debate sério, transparente e democrático sobre a actualidade (moral e ideológica) da Constituição portuguesa ou acerca do papel e funções que um Estado contemporâneo deve hoje assumir (assim como é imperativo debater seriamente a reforma administrativa do território nacional com base em argumentos que conciliem as demandas do século XXI com as memórias dos forais do século XI). Aliás, penso mesmo que tais debates são decisivos para abandonarmos a política de navegação à bolina que temos seguido nos últimos anos e aventurarmo-nos por mares mais espaçosos, imaginando um Portugal para os próximos séculos.

Dito isto, este debate deve visar a construção de uma proposta socialmente consensual que represente não só as vontades partidárias mas também as propostas que hoje emanam da cada vez mais organizada, informada e influente sociedade civil. Debate que deve ser potenciado através do diálogo institucional entre os diversos actores políticos, parceiros sociais e a citada sociedade civil (que hoje tem lugar de pleno direito em qualquer mesa negocial). Não seguir estes preceitos, procurar alterar as pedras basilares do nosso ADN político através da chantagem ou do usufruto totalitário de uma parca maioria parlamentar é não só distorcer todos os princípios democráticos em que assenta a República Portuguesa como desrespeitar a memória desta e de todas as gerações de portugueses e portuguesas que contribuíram para a construção deste nosso pedaço à beira-mar plantado.  

Mas como já se entendeu que a este governo pouco interessa o consenso ou o interesse nacional, encontramo-nos na antecâmara de um Golpe de Estado Constitucional que alterará significativamente o desenho político-institucional de Portugal como talvez somente o Estado Novo o tenha feito. E se na rua já se reúnem vários reviralhos, resta saber se Cavaco pretende transvestir-se de Carmona, validando um Salazarinho de 4ª categoria, ou se se recorda de que é ele afinal o mais alto magistrado da Nação e dá termo ao aventureirismo irresponsável de Passos Coelho. Até porque alternativas, bem válidas, existem.

 

(Texto publicado a 6 de Novembro de 2012) 

publicado por politicadevinil às 14:58
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