Terça-feira, 23 de Outubro de 2012

O fim desta História

Faz hoje 56 anos que na capital Magiar o povo húngaro se levantou violentamente contra um regime autoritário e em uníssono lutou pela sua emancipação. Em causa, o derrube de um sistema totalitário que, castrando as liberdades individuais (e colectivas) dos seus cidadãos, sobrevivia apenas sustentado por uma muito selecionada elite artificialmente ancorada numa ideologia desprovida de apoio social e agrilhoada a ordens importadas de uma estrutura sobre-nacional, com sede em país estrangeiro e distante (não me refiro à Comissão-Barroso, que de Bruxelas – a mando de Berlin - acorrenta hoje a Europa a um conjunto de políticas desprovidas de sustento social e totalitárias quando intervêm directamente na vida dos nossos concidadãos, castrando-lhes as suas liberdades essenciais).

Trinta e poucos anos depois, este regime – e seus irmãos - implodiu. Saiu de cena. Novos bardos da liberdade subiram ao palco, agora apoiados por quem dormia do outro lado da cortina. Clamaram pelo fim da História, pelo advento de um ‘Novo Homem’: o Homos democraticum (e liberalis). Aproveitando a benesse, um bem preparado conjunto de Über-Homos (aqueles seres meta-políticos que se movimentam apenas e exclusivamente entre ‘lounges’ de hotéis e restaurantes não cartografados em guias turísticos) decidiu avançar para o domínio total da Nova Era anunciada. Para tal bem municiados, estes senhores da Alta Banca e Finança Internacional, muitos também políticos activos nos bastidores dos tais clubes de cavalheiros (sim, que é apenas de homens que falamos), consolidaram uma linha estratégica já definida, financiando think tanks, Universidades e projectos políticos alinhados com a idea-mãe, pagã, do neo-liberalismo: o Mercado é Deus. O Lucro, Cristo.

Sob estes pressupostos, majestosamente custeados, edificaram-se as novas bases da actual fase do sistema capitalista. Construíram-se projectos de Media e Comunicação (para passar a Verdade), selecionaram-se nas universidades, nos partidos e nas redações a nova elite, educando-se os ‘jovens’ e reeducando-se os ‘velhos’ (curando os que 20 anos antes tinham tido apanhados pelo ‘vírus da esquerda’). Depois, com a máquina montada e as peças no lugar, pouco tardou para se apropriarem da hegemonia discursiva e cultural, primeiro, e depois dos palcos institucionais espalhados pelo panorama político europeu e mundial.

E o plano até corria bem, até que em 2008 os mecanismos acionados para se responder à crise financeira, expuseram a nu a natureza desumana de quem conseguiu transformar uma crise financeira num holocausto social; esfumando-se assim como asas de Ícaro (queimadas pelo desdém por quem sofre todos os dias) a hegemonia construída nas últimas décadas (cujo zénite tinha sido a colocação de Barroso nos comandos do barco da União). E se os gritos de 56 demoraram 30 anos a se transformarem em liberdade, não creio que tanto demore para que as vozes dos milhões de cidadãos que diariamente acorrentam a mais austeridade seja transformada num grito definitivo e transformador. O fim desta História já chegou. Estamos só à espera de Mulheres e de novos Homens.

publicado por politicadevinil às 15:56
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The end of this History

56 years ago in the beautiful Magyar Capital, the Hungarian people rose up violently against an authoritarian regime and in unison fought for their emancipation. At stake the overthrow of a totalitarian system that castrating the individual (and collective) freedoms of its citizens survived sustained by a select elite artificially anchored to an ideology devoid of any social support and fettered imported orders from a super-structure entity based in foreign soil (and I am not referring to the Barroso-Commission that today from Brussels - at the behest of Berlin - chains today’ Europe to a set of austerity policies devoid of any social support intervening directly – and in a totalitarian way - in the lives of our fellow citizens, castrating their essential freedoms).

Thirty-odd years later, this regime - and its brothers – imploded. New bards of Freedom took the stage then, backed by some of those who slept on the other side of the curtain. Many wailed for the end of History and the advent of a 'New Man': the Homos-democraticum (and liberalis).

Taking advantage of the bounty, a well prepared set of Über-Homos (meta-political beings living between uncharted hotels 'lounges' and close-doors restaurants) decided to aim for the total dominance of the announced New Era. In order to achieve such desideratum, these well financed High Banking and International Finance men and their active politicians working behind the scenes of such gentlemen's clubs (as indeed it is only of men we are speaking), consolidated an already defined strategy (in the 80’s) by further injecting money in think tanks, universities and political projects aligned with their idealized pagan neo-liberalism motto: the Market is God. Profit, Christ.

Under these majestically funded assumptions the new bases for the current capitalist system phase were build. Media and Communication projects sponsored (to pass the Truth), and a new elite selected in universities, political parties and newsrooms. Then, the young were educating according to the new dogmas, while the 'old' (the ones that 20 years earlier had caught the 'virus of the Left') were rehabilitated. Then with the machine set and the pieces in place, it took little time for the cultural and discursive hegemonic appropriation, first, and then to the European and worldwide institutional and political take-over.

All was going well with the plan until the mechanisms triggered to respond to the 2008 financial crisis exposed the inhuman nature of those who managed to turn a plain financial crisis into a social holocaust; scattering in the process, like wings of Icarus burned by the disdain for those who suffer every day, the cultural and political hegemony patiently built in the recent decades (and whose zenith was the placement of Barroso at the Union’s helm). And if the screams of the ‘56 Hungarian revolution took more then 30 years to be heard in freedom, I do not think it will take long for the voices of the millions of citizens who are daily fetter with more austerity are transformed into a definitive transformative choir.

The end of this History is here, then. We're just waiting for Women and the new Men.

publicado por politicadevinil às 14:06
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Alternativas

Para último dia como feriado nacional, este 5 de Outubro esteve carregado de eventos simbólicos. Primeiro foi a paródia orquestrada pelos espíritos dos heróis da Rotunda contra a bandeira da República, içada invertida, de pernas para o ar, no varandim da CML. Depois foi a re-encenação dos ‘Congressos Democráticos’ de Aveiro, agora em versão lisboeta, recordar as reuniões magnas da oposição anti-salazarista, denunciando (como em 57, 69 e 73) a falta de representatividade social do Governo e a sua inabilidade de condução dos assuntos da governação.

Se no primeiro caso estamos perante a coincidência do acaso simbólico, já o Congresso Democrático das Alternativas procurou agarrar o simbolismo do historial oposicionista ao Estado Novo para apresentar às esquerdas (e veremos se ao país) um projecto de convergência ‘anti-fascista’ alicerçado num conjunto de ideias e personalidades capazes de representar uma alternativa real e consistente. Mas, como durante os anos da escuridão salazarista, e apesar da maturação cívica, académica e profissional (e política) de muitos dos congressistas e promotores da iniciativa, rapidamente o sectarismo partidário apoderou-se do discurso pós-congresso, em especial o comunista e bloquista. Sem surpresa, repetiram-se as notas gastas do tango porteño tantas vezes escutado na história das oposições portuguesas, pretendendo o PCP não perder a hegemonia percepcionada (mas não real) sobre os movimentos sociais e o BE, herdeiro designado das esquerdas pós-soixante-huitard, apresentar-se como a vanguarda desses mesmos movimentos elegendo ambos como verdadeiro inimigo o PS, como se depreende das declarações de Louçã e Jerónimo.

De certa forma entende-se que Comunistas e Bloquistas queiram manter impoluto o velho tango taberneiro de Gardel. Afinal definiram-no. Mas não compreenderem que o bandonéon de Piazzola acrescenta notas de cosmopolitanismo a uma visão maniqueísta da sociedade (pretendendo-a inter-classista, complexa e politicamente plural) apenas manieta qualquer oportunidade de construção de uma alternativa edificada na articulação cívica da sociedade civil com os movimentos sociais e partidos políticos. Assim, e como nos 16 anos da República, a incapacidade de diálogo e convergência entre as principais forças progressistas portuguesas decepa qualquer ambição de edificar uma sociedade que (finalmente) consagre os valores primordiais inscritos nos manuais da ética republicana (adaptada). E enquanto se perde a oportunidade histórica de reunir num projecto comum um conjunto de pessoas com uma visão progressista do país, nem necessitamos de esperar pela próxima intentona reacionária ou revolução nacional. Ela encontra-se em curso e diariamente desmantela o país como o aprendemos a conhecer. E o ridículo é que as linhas gerais aprovadas na Aula Magna apenas desejaram denunciar o Memorando, reavaliar a dívida e apresentar uma alternativa que permitisse retirar a sociedade portuguesa do sufoco desta austeridade desigual.

 

publicado por politicadevinil às 14:03
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Terça-feira, 9 de Outubro de 2012

Tempos interessantes

«Que vivam tempos interessantes», desejavam os chineses aos seus inimigos, esperando que a intriga da corte, a revolta das elites ou a insubmissão popular os assolassem ao ponto de se arruinarem politicamente. Uma praga macabra que parece ter recaído sobre o Pedro, pois subitamente no condado imaginário do rei-garoto tudo ruiu. Como em peça de enredo pós-medieval, o seu círculo apenas intriga e conspira. Não governa nem manda. Vive numa bolha imaginada, de sabão fino. Enquanto isso, a realidade, indignada com o autismo e a injustiça social, ruidosamente insurge-se nos becos e vielas, revoltando-se nas ruas e avenidas.

Acantonado e só, e sem forma de pacificamente sair da sua residência salazarista, o rei-garoto estranha as perturbações no seu sono tranquilo, atormentado na busca da semente de tal praga. Não entende que a origem é ele próprio – a sua incompetência, impreparação e insensibilidade política. E que a actual vaga de desdém e escárnio não é maldição divina, apenas a não aceitação – absoluta – dos planos de engenharia social ideologicamente formatada que, encoberta na tecnocracia da troika, alguns conselheiros do rei-garoto pensaram poder executar livremente.  

Para pena do Pedro, que pensava que esta coisa da democracia seria apenas um passo intermédio para o advento da ditadura do capital, verificou-se que existe um limite ideológico que ao ser ultrapassado ateia tal reacção na rua, nos parceiros sociais e na oposição politica, que ao invés do desejado regresso a um Portugal socialmente pacificado e dominado por um oligopólio de investimento estrangeiro, privado, regressou antes o país ao seu imaginário de Abril, pré e pós revolucionário.

Ao não aceitar existir como coutada de estranhos senhores, não convidados e sem maneiras, Portugal desnudou politicamente o actual Primeiro-ministro, expondo-o como garoto imberbe. Se crescido fosse, sairia de cena, mas como rapazote pensa em pinos, em mexer na sua ‘cage aux folles’ ou prostra-se como Madalena arrependida nas redes sociais. Não entende que como erro de casting espera apenas que o televoto de Belém o expulse da ‘vivenda São Bento’. Sobrevive porque, mesmo não governando, falta sucessor; porque a oposição (ainda) não é alternativa. Para o ser, tem de pacientemente organizar-se em conjunto com os diversos parceiros sociais, com a rua interclassista e socialmente transversal, e com os partidos e movimentos políticos que, partilhando da inconsequência das actuais politicas de austeridade, saibam construir uma alternativa politicamente sólida, socialmente consistente e economicamente viável.

São de facto tempos deveras interessantes, os que vivemos hoje. Tempos em que, expondo os garotos, se espera das mulheres e homens bem formados deste país, dos velhos e dos novos, que assumam a responsabilidade de construir uma plataforma politica progressista sintonizada com as necessidades e ambição da sociedade portuguesa (e europeia). Aqui mora a responsabilidade do nosso futuro colectivo. Que saibam se entender. E o Pedro? Se deixarem volta para a escola.

publicado por politicadevinil às 13:20
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Rua, já!

Provocando um autêntico “efeito-scolari”, o Primeiro-ministro conseguiu a proeza de unir Portugal num unânime movimento pré-revolucionário, que grita a uma voz: “chega”! Agora, enquanto se espera por mais reacções institucionais (CDS e Presidência), exigem as regras da boa educação cívica e política, da vida pacífica das democracias consolidadas, que o senhor Primeiro-ministro, por livre iniciativa, peça imediatamente dispensas públicas pelo ridículo das suas recentes declarações e se exponha abertamente à humilhação e ao escárnio popular. E que depois diga que afinal está cansado, que governar em prol do Povo é desgastante, e que vai imediatamente regressar à sua actividade liberal num par de empresas de amigos, ao canto coral numa Paróquia pouco carente ou pedir uma cunha ao Crato para se reciclar num curso profissional que não seja intelectualmente exigente. Na realidade, que faça o que bem entender, mas que deixe rapidamente a governação do país a alguém de (alguma) competência. E que leve consigo, pelo menos, o menino Relvas e o ‘Padre’ Gaspar.  

Passos conseguiu provar que, apesar de todos os processos de institucionalização dos sistemas políticos contemporâneos, apesar da construção Europeia ter introduzido (não democraticamente, diga-se) os pilares da tecnocracia governamental, quando a vida das pessoas é atacada pela incompetência dos seus governantes, pela tirania e má fé de quem as lidera, elas reagem. E reagem virilmente. Mais, conseguiu ainda demonstrar que a sociedade civil e politico-partidária portuguesa – da esquerda à direita - se consegue unir em torno de uma causa comum (que não Timor-Leste), partilhando da ideia de que Portugal é (ainda) um pais com direito de existir e que, apesar da consecutiva degradação e desnivelamento da nossa elite politica, existe um limite para a incapacidade governamental, limite agora alcançado.   

Ou seja, atingimos o ponto de ruptura, de não-retorno. Já não dá para continuar com este senhor a dar a cara pelo governo de Portugal. Resta esperar que o senhor Presidente da República também entenda isso, assim como o líder do partido parceiro de coligação governamental (co-responsável mudo desta infeliz mise-en-scéne). E que ambos entendam o que toda a oposição, o que toda a sociedade civil, o que toda a opinião pública e publicada, o que todos os portugueses já perceberam: Passos, Rua, já!!!

(este texto foi escrito antes das intervenções de António José Seguro e Passos Coelho)

publicado por politicadevinil às 13:12
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Responsabilidades

Dizem-nos os livros de Ciência Política que regimes democráticos são aqueles em que a população qualificada elege líderes e representantes para que, com base num programa político exposto e debatido, governem em máxima consideração contratual com o interesse do Povo. Não o fazerem, ou deturparem as premissas desta primeira directiva, significa quebrarem o contrato com os seus governados e caminhar para a ilegalização social e para a ilegitimidade ética e moral.

Na sexta-feira, o primeiro-ministro rasgou definitivamente o contrato que tinha estabelecido com os portugueses, confirmando que os alarmantes sinais de autismo político e social que tinha vindo a demonstrar são afinal genéticos e que governa apenas para gáudio de Bruxelas e Washington, escondendo-se nas saias dos mercados internacionais, do FMI e da Comissão Europeia. Para mais, as contas da opinião pública e publicada são claras: estas medidas pouco beneficiarão o Estado, colhendo delas dividendos apenas um punhado de PME e essencialmente as grandes empresas. O impacto no défice não será significativo, não se criará emprego, nem se estimulará o mercado interno. Apenas se confirmará o exturco de 40% da qualidade de vida a um povo já debilitado (em apenas um ano). Nunca um governo democraticamente eleito tinha mostrado tamanho desrespeito e desprezo pelo povo português e se aproximado tanto da tirania social.

É evidente que estamos perante uma conjuntura de emergência nacional a necessitar urgente ingerência da parte dos actores com capacidade de intervir no sistema político português: a Presidência da República, o próprio governo ou a oposição política e social. O Presidente vetando qualquer OE que vincule as medidas anunciadas (ou demitindo o Governo por quebra de legitimidade social); o CDS (ou alguns barões do PSD) quebrando a solidariedade governativa por inteirar-se da falta de sentido da liderança de São Bento; e os partidos da oposição organizando-se conjuntamente com a sociedade civil e pressionando o governo para que se demita ou revogue estas propostas.

Julgo ser o último cenário o único provável, pois não conto que Cavaco, o CDS ou o PSD intervenham. E como não creio que outro partido que não o PS possa liderar uma alternativa governamental, a responsabilidade da mudança encontra-se nos socialistas e na sociedade civil. Ora esta tem de continuar a organizar-se fora do espectro partidário e a manifestar-se livremente. Quanto ao PS, espero que entenda estar perante a oportunidade histórica de poder liderar uma ampla coligação progressista (uma Frente Republicana e Socialista, por exemplo), especialmente se abandonar a sua política de abstenção, se se envolver na oposição ao governo (indo para a rua, apoiando manifs) e se, com capacidade auto-crítica e humildade, convide outros parceiros para a construção de uma alternativa politicamente alargada e socialmente significativa.

publicado por politicadevinil às 13:09
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