Sábado, 26 de Maio de 2012

Capas Negras

Por fortuna e méritos futebolísticos, este domingo subiu ao relvado do Jamor a equipa da Académica. Após ter ganho a primeira edição da Taça de Portugal (em 1939, 4-3 ao Benfica), a última presença da Briosa no mais fascista Estádio de Salazar fora há 43 anos, em 1969.

Na altura, como anteontem, a cidade estudantil deslocou-se à Capital fardada a rigor, cobrindo de trajes negros as paisagens de Lisboa. Na altura, como anteontem os estudantes trouxeram consigo as preocupações de uma geração, estampadas em tarjas pintadas a branco e negro. Na altura, como anteontem, preocupavam-se com o seu futuro, e com o futuro do seu país. Insurgiam-se contra uma ditadura datada, contra a guerra colonial e contra a falta de futuro. Recorriam à emigração (essencialmente clandestina) para fugirem de um país que já não era o seu.

Anteontem os jovens de Coimbra insurgiram-se contra o estado do ensino e das universidades, contra a falta de emprego e de oportunidades, contra a falta de futuro. Contra a necessidade de emigrar e de ter de procurar no estrangeiro as oportunidades que dignifiquem as qualificações entretanto adquirida. Fogem da carestia e da pobreza que os espera em Portugal. Fogem de um país que os convida a sair.

E é grave, muito grave, que 43 anos depois, o Governo de Portugal - agora democraticamente eleito - continue a provocar tais reacções na sua juventude. Um Governo que reconhece ser esta a mais bem qualificada geração de portugueses, mas que lhe proporciona como opções de vida a saída do país, o trabalhado precário ou as estatísticas do desemprego; a cínica tríade hoje tatuada em milhares de portugueses: desemprego, emigração, precariedade.

Como pode um governante não só abdicar da sua "geração mais qualificada", dela desistir, como a exportar por tuta e meia? Que pensar de quem sugere que a miséria do desemprego, e o risco de pobreza a ele associado, não é um problema social mas antes uma oportunidade individual? Não entende o primeiro-ministro que a inevitável eternização de um quadro de recessão económica não irá permitir a persecução de algum tipo de oportunidade? Não entende que é urgente mudar o rumo das políticas públicas e apostar em modelos de crescimento que não dependam exclusivamente da redução do défice e do Estado Social?

Saberia de tudo isto o nosso primeiro-ministro se se interessasse mais em governar para os portugueses e menos para os mercados. Se olhasse com mais atenção para a geração que anteontem vibrou no Jamor, recordando heróis de outrora. Os que em 1969 ondulavam nas bancadas do Jamor as Capas Negras de uma geração abandonada, jogo que a Briosa perdeu (2-1, frente ao Benfica), obrigando Coimbra a regressar ao seu fado. Mas este Domingo a "Cabra" soou os badalos de uma nova geração coimbrã, esperando que a Taça ganha não enjeite os de agora como os de 69, mas antes lhes dê esperanças no futuro.
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José Reis Santos, Historiador

publicado por politicadevinil às 12:28
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PASOK ou PSF?

A Europa viveu este fim-de-semana alucinantes dias eleitorais, com a decisão das eleições presidenciais francesas, parlamentares na Grécia, municipais no Reino Unido e regionais na Alemanha (Schleswig-Holstein).

Em todas o resultado foi o mesmo: estrondosa derrota dos defensores das medidas de austeridade.

Em França tal significou o regresso de um socialista ao Palácio do Eliseu 17 anos depois, na Grécia a hecatombe dos partidos pró-troika (socialistas gregos - PASOK - e conservadores - Nova Democracia - perderam quase 45% do votos em relação a 2009), no Reino Unido o relançamento do Labour de Ed Miliband e na Alemanha à perda de influência da CDU no pequeno Estado do Schleswig-Holstein.

Uma leitura de conjunto permite acalentar esperança na mudança do rumo da política europeia, não só pela quebra do dínamo ‘Merkozy', mas essencialmente pela esperada renovação discursiva e programática a ser introduzida por Hollande, e no desejado papel de charneira que o novo Presidente gaulês pode representar para a esquerda (europeia). Espera-se agora que daqui por um ano e meio seja a vez da senhora Merkel se despedir dos seus conterrâneos, criando as condições para que em 2014 o sucessor de Barroso seja proveniente da família do PES (Partido Socialista Europeu).

No entanto, os socialistas europeus devem aproveitar estes resultados para reflectirem sobre se se sentem mais próximos do PSF ou do PASOK, se entendem necessário continuar a pactuar - directa ou indirectamente - com a política de Bruxelas ou se pretendem contribuir para a necessária mudança de paradigma europeu, considerando para este efeito algumas das propostas provenientes da ‘nova esquerda' (como o Syriza grego), dos ‘verdes' e alguns partidos liberais, fomentando uma nova e alargada aliança de esquerdas moderadas.

É que não basta anunciar ‘mudança' em slogans e bandeiras coloridas, especialmente quando em muitos casos foram partidos socialistas os primeiros defensores de Barroso-Merkel-Sarkosy. Há que saber promover a mudança. Dentro dos Partidos em primeiro lugar, sem ter medo de romper com velhos dogmas ou interesses instalados (até porque foram estes que nos conduziram à situação actual), criticando algumas das políticas seguidas no passado recente e procurando reconquistar a hegemonia cultural e política. Depois, e em conjunto com diversas forças sociais e políticas, saber promover o tal novo paradigma de governação.

No caso português, isso significa criticar o passado de José Sócrates, o apoio a Barroso e a validação tácita do programa da Troika, procurando depois relançar o PS como alternativa política consistente, já sintonizado com os tempos de uma (desejada) nova Europa. Não o fazer, colocará Seguro mais próximo de Venizelos (líder do PASOK) que de Hollande. E se muito temos ouvido o líder do PS a prenunciar-se sobre Hollande, seria também interessante ouvir as suas impressões sobre o caso grego. Para melhor entendermos que PS podemos esperar no futuro, se um mais próximo do PSF ou do PASOK.
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José Reis Santos, Historiador

publicado por politicadevinil às 12:26
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