Quinta-feira, 26 de Abril de 2012

Parir Abril

Prestes a completar 38 anos de idade, o 25 de Abril, depois de uma infância feliz e uma adolescência intensa, depois de terminar um curso numa universidade pública e de ter entrado no mercado de trabalho...

Prestes a completar 38 anos de idade, o 25 de Abril, depois de uma infância feliz e uma adolescência intensa, depois de terminar um curso numa universidade pública e de ter entrado no mercado de trabalho - primeiro como estagiário, depois com contracto a prazo -, depois de se ter apaixonado, casado e parido, depois de se ter emancipado e comprado casa, depois de se ter endividado e ter acreditado que teria melhor qualidade de vida que os seus pais, hoje está desempregado e divorciado, tem custódia conjunta da criança, dívidas à Segurança Social, mestrado acabado e doutoramento incompleto, pensa sair do País onde sempre viveu e arriscar fortuna em Luanda, Madrid ou Rio de Janeiro.

Mas enquanto pensa e repensa no que fazer à vida, agora interrompida, regressou envergonhado à cama de solteiro que mantém em casa dos pais, onde prepara os CV, navega na net e ajuda nas tarefas domésticas. Amanhã vai sair à rua e descer a Liberdade. Não sabe se será alvo da "tolerância zero" prometida pela nova PIDE, e se regressará a casa - a casa dos seus país - com novas feridas para sarar. Mas não se importa. Importa-lhe estar com as novas e velhas gerações, indignar-se com o estado de precariedade geral do seu País, exigir mais a quem o governa e representa, e partilhar o feriado de amanhã - enquanto houver feriado amanhã.

Quer chegar ao Marquês via Parque Eduardo VII, deparar-se com a esperada massa humana com a vista privilegiada do topo da colina do monarca inglês, resguardado pela bandeira da Pátria e pelo fálico símbolo da revolução. Aquele que nos remete para todos os símbolos másculos da nossa revolução e que simboliza - como conceito - a pujança e vigor de um povo unido em busca do seu futuro.

Depois quer descer a Avenida, baptizada de Liberdade, mergulhar incógnito na multidão anónima e diluir-se na tranquilidade expressiva de quem se congrega em torno da partilha de uma memória emancipadora. Esquecer-se do fado triste diariamente tatuado no seu pardo quotidiano, da melancólica sina que hoje partilha com quem consigo marcha, esquecer-se da falta de futuro que consome a sua geração, das ‘troikas' domésticas e importadas, do País permanentemente incumprido e adiado. E recordar-se de todos sonhos que Abril lhe possibilitou quando foi fecundado por um povo revoltado e motivado, ansioso de esperança e de operar a transformação de uma nação submissa e submersa por 48 anos de ditadura estéril numa sociedade tolerante, equitativa e progressista.

Mas talvez uma fertilização insuficientemente feminina tenha adiado a conclusão de uma gravidez que há quase quatro décadas matura na sociedade portuguesa, que acumula transformações que injectam a percepção de mudança e progresso mas mantém o privilégio oligárquico construído na transição e na estabilização democrática. Não é esse o Abril que queremos parir. Talvez melhor esperar, arriscar a fortuna em Luanda, Madrid ou Rio de Janeiro, mas também Lisboa, Porto ou Bragança. Não desistir. Descer a Avenida a cada ano, antes que se pense em transitar o feriado para Novembro... 

publicado por politicadevinil às 13:31
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Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

Caminhos

A 6 de Maio de 1940 John Steinbeck era galardoado com o prestigioso prémio Pulitzer pela sua novela As Vinhas da Ira.

Nesta verdadeira obra-prima da literatura norte-americana, Steinbeck segue com minúcia e deliberado detalhe as amarguras e angústias da família Joad que durante a Grande Depressão viajam do Oklahoma à Califórnia procurando no Eldorado Californiano um escape ao desemprego, à miséria e à fome. Neste relato cru sobre as condições sociais na América dos anos 30, levado magistralmente ao cinema por John Ford, Steinbeck reconheceria que fora sua intenção colocar um rótulo de vergonha nos gananciosos anónimos responsáveis pelas causas e efeitos da Grande Depressão, tomando assumidamente o partido das classes desfavorecidas em detrimento da privilegiada oligarquia capitalista dominante.

Por casualidade da História, o próximo dia 6 de Maio - dia da segunda volta das eleições presidenciais francesas - poderá voltar a colocar em foco as ambições de Steinbeck, pois parte do discurso de François Hollande (o candidato socialista) assenta na vontade de responsabilizar os provocadores da actual crise, promovendo em simultâneo um novo pacto social, baseado no combate ao ultra-liberalismo financeiro, na exigência governativa, na Igualdade e na equidade e responsabilidade social.

A se confirmarem estas intensões de voto, o PSF prepara-se para eleger o seu segundo Presidente desde a II Guerra Mundial e consolidar um processo de maturação político e doutrinário que lhe tem permitido uma aproximação à sociedade civil e academia e construir uma alternativa coerente, competitiva e amplamente participada. Este caminho, construído sob a liderança de Martine Aubry, tem permitido ao PSF recredibilizar-se junto das diversas forças sociais francesas e assumir uma certa hegemonia ideológica e intelectual no panorama político e cultural gaulês.

Em vésperas de uma aguardada vitória de Hollande, questiono-me se o PS português tem sabido procurar o seu novo caminho e construir uma nova alternativa que permita - à semelhança do PSF - tornar-se culturalmente hegemónico. E a considerar o desempenho dos socialistas nestes últimos meses, penso que (ainda) não.

Em quase um ano de mandato os contributos da liderança socialista são pouco perceptíveis, e só se entende a política de neutralidade e abstenção seguida pela necessidade de criar um espaço político onde possa, então, construir a tal nova alternativa. Mas a verdade é que já deveriam ter sido dado mais passos nesse sentido. Já deveria ter sido promovida uma análise crítica do consulado Sócrates, identificado as suas marcas positivas e os erros cometidos, denunciado os casos de abuso de poder, e essencialmente apresentado ao Partido (e à sociedade) as matrizes de uma nova dinâmica política capaz de re-conectar o PS com os novos paradigmas da nossa contemporaneidade.

Pode, à semelhança dos Joads, estar o PS ainda com dificuldades em sair do seu árido Oklahoma, mas convém que comece rapidamente a perceber que caminho o levará ao seu desejado Eldorado.

publicado por politicadevinil às 14:32
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