Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

O artista

No actual circuito de prémios da industria cinematográfica um filme têm-se destacado: o Artista.

É um filme anacrónico, mudo e integralmente a preto e branco, que retracta a traumática transição dos ‘silent movies' para os ‘talkies' através do declínio de uma estrela da velha guarda - renitente em se adaptar à nova realidade - e da ascensão de uma nova vedeta - símbolo imediato da nova vaga.

Hoje, munidos de tecnologias como a cor, a alta-definição ou as 3D, não deixa de ser curioso verificar como a contemporaneidade política teima em manter no activo uma panóplia de artistas ancorados a visões passadistas e desligadas da nova realidades mundial.

E nem me refiro exclusivamente aos políticos da nossa praça, meros figurantes obedientes sem direito a fala ou a identidade governativa. Refiro-me aos que, hoje por imbecilidade e teimosia dogmática, teimam em perpectuar a insistência na implementação de mais e mais pacotes de austeridade no espaço europeu, eternizando e agudizando a crise social, cegos que estão na perseverança de modelos datados de duas cores.

Neste cenário, a cor tem vindo das chamas que percorrem a Europa desesperada e sem futuro. A Europa desempregada, atacada nos salários, nos sonhos e na qualidade de vida. A Europa pobre, vagabunda e triste. Sem força ou esperança. A Europa que não entende os porquês da persistência da crise, da falta de alternativa política viável ou da subjeção de um continente à vontade de uma senhora apenas. Essa Europa que se esconde com vergonha dos cobradores de paletó e penhora as suas jóias e pechisbeques a senhores com fato da 5ª Avenida.

Perante este pranto colectivo, os artistas da revista-pátria lusitana limitam-se a percorrer os palcos despidos do nosso horizonte, cantando sem rima promessas rompidas em cada passo trocado, rezando a todos os deuses para que não nos tomem por gregos ou por troianos, sem se darem conta que já somos, há muito, gregos e troianos, arregimentando neste caminho apenas os fieis, os tontos e os que - bem conectados - ainda tiram partido do sistema, mesmo falido como está.

E enquanto isto a "nova vaga" teima em se apresentar, refém que se encontra da impossibilidade sistémica de ser significativa, se não intervir no espaço alemão, francês ou em Bruxelas; razão evidente mas que não justifica a falta de alternativas parcelares nos países periféricos europeus, Portugal incluído. E esta nova solução terá de provir de uma nova reflexão à esquerda; uma reflexão madura, alargada e social e politicamente consistente.

O problema é que muita desta esquerda vive também o trauma da passagem aos ‘talkies', repleta que está de artistas de outras eras. Terá agora de saber construir o enquadramento que simultaneamente filtre os talentos válidos de outrora e permita o advento de novos actores, já desligados das velhas rotinas. Em França, espaço de intervenção real, Hollande tem procurado um novo caminho, de ruptura equilibrada e de transformação matricial.

Em Portugal, é urgente que Seguro liberte o PS do acordo da ‘troika' e siga estes passos, para que não corra o risco de se tornar, como o nosso primeiro-artista, em personagem muda.

publicado por politicadevinil às 13:55
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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

Filosofia caduca

Um dos privilégios de trabalhar em História Contemporânea é sermos confrontados com dilemas do presente e, consequentemente, ter a oportunidade de mergulhar nos debates políticos, filosóficos e intelectuais decorrentes.

Em concreto interessam-me as reflexões sistémicas. Isto porque somos confrontados com a incapacidade dos sistema políticos gerirem o Bem Comum, promoverem uma sociedade mais equitativa e justa e acabarem com o abuso do Estado em prol de alguns poucos, obscuramente selecionados. Estes são os dilemas do nosso tempo, como o eram há mais de 100 anos. Com a agravante de se terem agudizado no quadro da crise vigente e de serem hoje evidentes para o cidadão comum (bem) informado.

Pior, num momento em que se esperava maturação democrática e um consenso social alargado em torno de um futuro colectivo partilhado - face à crise - temos assistido à total incapacidade da nossa elite política em "dar conta do recado", interessada apenas em salvaguardar os (seus) privilégios adquiridos. Tal constatação, partilhada entre os partidos no arco governativo, recorda-me um comentário de Antero de Quental quando, insurgindo-se contra o rotativismo parlamentar estéril do século XIX, referia que "os partidos perdem a noção da realidade e, enquanto o mundo está em constante transformação, eles repetem maquinalmente as teses habituais de uma filosofia caduca, que nem sequer entendem". Hoje questiono-me se, perante as transformações do nosso tempo, não estarão os nossos políticos a repetiram fórmulas gastas, obsoletas, e - mais grave - a insistirem na demonstração da falência do actual sistema democrático-parlamentar.

Este último ponto apresenta, a meu ver, uma gravidade absoluta, pois decorre da sua interpretação a apresentação de alternativas populistas autoritárias que, no decurso da História, possibilitaram o advento dos fascismos, comunismos e outros totalitarismos e, validaram recentemente, por exemplo, o golpe de Estado Constitucional húngaro.

Não pretendo com isto afirmar que Portugal esteja perante tal grave situação (como no passado), mas apenas alertar que a constante falta de qualidade da nossa classe político-partidária pode originar a falência do sistema como o conhecemos. Não podemos continuar a aceitar a imortalização das teses habituais de uma filosofia caduca e mal-entendida, apresentadas por actores clonados dos nossos piores exemplos. É imperativo que surjam novas alternativas, protagonistas e propostas. É necessária mais acção, dentro do quadro democrático-institucional vigente, mais associativismo, mais sindicalismo, mais indignação, mais alternativa partidária consistente. É que, em boa verdade, não é necessário refundar ou romper com o sistema. Até porque o mesmo pode ser (bem) gerido se soubermos promover e apoiar uma elite política capaz e altruísta. O que até ao momento não tem sido possível.

publicado por politicadevinil às 11:22
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