Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

Quem é o Maçom?

Justo entrados no último ano do antigo calendário Maia, parece que o país público decidiu inventar um novo ‘reality show’ que promete desvendar quem estará por detrás de todos os males da República: “Quem é o Maçom?”

Este novo programa de entretenimento variado, disponível em diversos canais noticiosos, não prima pelo ineditismo: uma anterior versão, ainda a preto-e-branco e com som distorcido, foi inaugurada faz esta semana 77 anos em plena sede de Parlamento (na altura Assembleia Nacional). Aí, na primeira sessão legislativa da primeira legislatura de um Estado que se intitulava de Novo, coube a honra de ser o projecto de Lei n.º 2 exclusivamente dedicado à extinção - legal - da Maçonaria em Portugal.

Na leitura deste senhores, a maçonaria estaria na origem da decadência moral e política da Nação, sendo singularmente responsável pela anarquia reinante em terras lusas. Na realidade tinham razão quando identificavam a Maçonaria como uma das principais forças de combate à Monarquia Constitucional e à casa Real e impulsionadora da República em Portugal, como já havia sido motora da luta contra o absolutismo, o obscurantismo católico e o ultramontismo bacoco (já a falência da República tem causas bem mais complexas que a presença, activa e pública, de maçons na vida política). Durante a República, recordo, foram ideais maçons que estiveram na promoção da educação pública, do progresso social e do secularismo.

Comparações, ironias e ‘blagues' à parte, quero acreditar que o Portugal de 2012 é bastante distinto do de 1935, e que a recente perseguição mediática à maçonaria revela - uma vez mais - apenas a incapacidade da opinião pública e publicada em distinguir o superficial do essencial e saber apresentar, com claridade, as complexas causas do actual estado de calamidade nacional, em especial as nebulosas relações entre o poder económico e político, a natureza e qualidade do recrutamento para exercício de cargos públicos e a incapacidade regeneradora dos partidos políticos. Todas razões há muito identificadas, sistematicamente alvo de promessas eleitorais e de infrutíferas tentativas reformistas (neste tema, não tinha Passos Coelho prometido ‘no jobs for the boys'?).

Naturalmente que a Maçonaria não está livre de sofrer dos mesmos problemas do país, de ser objecto de usurpação e albergue de personagens de mau carácter e má rês. Como não estão a Opus Dei, os Jesuítas ou os Maristas. Mais, segundo a tradição e as regras da maçonaria, gentes de tal espécie não têm lugar em tal associação e deveriam ou ser vetadas à entrada ou expulsas, como clamam diversas altas instâncias maçónicas. O problema está na leviana promiscuidade entre os pilares económicos e partidários do nosso sistema político; o que, aliado à falta de transparência endémica, ao clima de impunidade pública e à presença activa e conspirativa (para uso próprio) de muitos chicos espertos, tem permitido demasiados exemplos de abuso de poder e de usufruto indevido do Estado.

A resolução destas incontestáveis constatações deve ser, a meu ver, um dos centros das nossas preocupações enquanto actores activos na vida pública nacional e não, como é evidente, de procurar o Maçom, o Opus Dei, o Marista ou Escoteiro em cada um de nós.

publicado por politicadevinil às 15:24
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