Terça-feira, 18 de Janeiro de 2011

Campanha

A poucos dias da próxima eleição presidencial, a campanha eleitoral encontra-se no seu pico. Os candidatos desdobram-se em comícios, arruadas, discursos. A batalha pela atenção dos media e da boa imprensa é feroz.

Este é, então, o momento de observarmos as diversas máquinas eleitorais em acção. Dos Partidos políticos, isto é; e as suas concelhias e federações, os verdadeiros motores das mobilizações espontâneas e responsáveis únicos pelas salas e salões bem preenchidos e devidamente pré-fabricados para o efeito televisivo. Campanha eleitoral é, hoje, apenas percepção. Media e ‘spin' (e alguma, pouca, mensagem).

Os partidos preocupam-se quase exclusivamente com a cobertura mediática. Para tal activam as suas máquinas, alugam autocarros, distribuem bandeiras e brindes, desenham palcos e salas e elaboram ‘slogans' com graça e mal-dizeres. O retorno efectivo deste investimento é escasso. Apenas se deslocam e transportam convertidos a estes encontros encenados, muitas vezes a troco de uma visita paga, e com um bilhete de regresso no bolso. O efeito pretendido é causar a percepção de força, momento, crescendo. Sempre em crescendo até ao comício final, na capital ou em território politicamente domado. Percepção, é a aposta. Percepção construída e coreografada.

A mensagem política é, geralmente, fraca. Fraca e geralmente pouco interessante para os media - seus principais consumidores - que tudo reduzem a um ‘soundbite' e a uma peça de 30 segundos. O resto é ‘spin'. Blogues, comentadores, jornalistas engajados, twitter e facebook preparados para o ataque. É destas fontes que provêm os boatos e os ataques baixos. Mas também as releituras, as chamadas de atenção, as análises ponderadas e apresentadas como neutras e informadas. O ‘spin' tem o propósito de fixação da mensagem e da sua repetição exaustiva, além de permitir a exploração de linhas de discurso não possíveis aos candidatos, e o uso da artilharia suja fabricada nos quartéis-generais dos Partidos Políticos.

O efeito do ‘spin' é bem mais eficaz que o dos comícios. Daí o investimento recente que os principais partidos têm colocado nas redes sociais, nos blogues e na colocação e promoção de comentadores amigos. O ‘spin' atinge mais gente, menos envolvida nos partidos (por isso não alinhada, à partida), e tem um efeito mais prolongado no tempo, pois é facilmente duplicado e triplicado em redes sociais e blogues de boa visibilidade e impacto.

Temos tido, então, uma campanha sem grande conteúdo, debate ou discurso. Contentamo-nos com a obtenção de mínimos olímpicos, sem nunca demonstrarmos qualquer ambição de lutar pelo pódio, por medalhas. É, pois, então, tudo fraco, pouco emotivo, pouco criativo. Pouco real. Apenas percepção.

Mas estas não são, atenção, apenas características desta campanha presidencial portuguesa. Não. É o estado geral da política europeia (e mundial), o que não deixa de ser preocupante. Especialmente se nos recordarmos de que já houve outro tempo, e outras formas de estar na política

 

publicado por politicadevinil às 20:13
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Campaign

A few days before the next presidential election, the campaign is at its peak. Candidates promote rallies, street actions, deliver speeches. The battle for media attention and good press is ferocious.

 

This is, then, the perfect time to look at the various Party machines in action. Political Parties machines, that is, and its different branches, the real engines of ‘volunteer mobilization’ and responsible for the full rooms and duly completed campaign dinners, pre-fabricated for the sole purpose of television. Today electoral campaign is only this: perception. Media and 'spin' (with a little bit, message).

 

The Political Parties are concerned almost exclusively with the media coverage. For that, they activate their electoral machines, rent buses, distribute banners and gifts, design stages and rooms and elaborate grace and jokily slogans. The effective return on this investment is scarce, as just the already converted and Party members are moved and transported to these staged encounters, often in return for a paying visit, and with a return ticket in their pocket. The intended effect is to cause the perception of force, momentum and grow. Campaigns always grow until the final rally, in the capital or in territory politically tamed. Perception is the bet. Constructed and choreographed perception.

 

The political message is generally weak. Weak and uninteresting for the media - their main customers -, which reduces everything to a 'soundbite' and a 30-second ad. The rest is 'spin'. Blogs, commentators, engaged journalists, twitters and facebooks prepared to attack the opponent and to defend a certain line of discourse. It is from these sources that come the rumors and the smear campaign. But also the after-the-fact-readings, calls for attention, weighted analysis presented as neutral and informed. The 'spin' means to fix the message and promote its tiring repetition, and it allows to explore aspects and dimensions not possible for the candidates, using sometimes for that effect the dirty political artillery made at Political Parties headquarters.

 

The effect of 'spin' is far more effective than rallies. Hence the recent investment major Parties have placed on social networks, blogs and placement od friendly commentators. 'Spin' reaches more people, less involved in political parties and has a more prolonged effect in time, as it is easily doubled and tripled in social networks and blogs of good visibility and impact.

 

We had then a campaign without great content, debate or speech. We have content ourselves with getting Olympic minimums, never showing any ambition to fight for the podium, or for medals. It is, therefore, all so weak, unemotional, and with little space for creativity. Not real. Just perception.

 

But these are not only features of this presidential campaign in Portugal, attention. No. This is the general state of European (and global) campaigns, which is nonetheless troubling. Especially if we recall that there has been another time, and other ways of being in politics.

publicado por politicadevinil às 19:34
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Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011

Oportunidade perdida?

À entrada para 2010 escrevia nestas páginas que o ano iria ser exigente. Para o Governo, que teria de ter a sensibilidade e o bom senso de saber manejar politicamente a falta de consenso parlamentar e a animosidade de uma oposição sedenta de protagonismo político.

Para a Presidência, que teria de saber conviver com a mais instável solução governamental dos últimos anos e relacionar-se com um governo titubeante, frequentemente navegando à bolina. E para a oposição, que teria de conviver com uma realidade política onde lhe seria requerida muita responsabilidade e sentido de Estado.

Ora 2010 passou, e os principais actores políticos falharam, redondamente. Governo e oposição falharam ao não terem conseguido criar soluções pacificas e estáveis que apaziguassem os mercados e colocassem o país na porta de saída da crise. Isto significou que o sistema partidário, que deveria ter sabido responder maduramente a estes desafios, demonstrou total incapacidade de saber gerar compromissos políticos pacíficos e prospectivos. A Presidência falhou também, por não ter o país retirado nenhuma evidente vantagem do facto de ter, no seu pináculo institucional, um político profissional, ex-primeiro-ministro e ministro das finanças e economista de renome. Perdemos esta oportunidade.

Esta reflexão é importante pois, em Janeiro, iremos eleger um novo Presidente (ou não); e temos assim a oportunidade de reflectir sobre o papel do Presidente no nosso sistema político. Ora, e perante a situação política interna, a dimensão que acarreta apreciação mais atenta é a capacidade de dissolução da Assembleia da República. E, neste ponto, ambos os candidatos em competição eleitoral (Cavaco e Alegre) tem deixado bem claro que o factor decisivo na utilização de tais poderes é o carácter do titular do cargo, e a sua capacidade de discernimento e de análise da situação política nacional.

Falamos então de carácter. Cavaco já deu provas de não conseguir intervir qualitativamente no quadro político nacional, e só não dissolveu o Parlamento no seu mandato findo por notória falta de confiança na solução preconizada por Passos Coelho. Alegre, por outro lado, tem demonstrado total incapacidade de se abstrair de um discurso "abrileiro" datado, assente num monolítico confronto esquerda-direita; inoperante defronte da incapacidade de relação entre as forças partidárias que o apoiam.

2011 será, assim, sempre, uma oportunidade perdida. Não termos conseguido produzir candidatos presidenciais com outra vitalidade e capacidade de percepção do sistema político nacional demonstra que Portugal, 36 anos após ter instaurado um regime democrático, ainda tem muito que galgar para produzir o necessário caldo político e cultural que lhe permita, definitivamente, colocar-se no rumo sonhado e escrito por tantos e tantas ao longo da nossa história colectiva e que, em última analise, apenas procuraram que o país consagrasse uma cultura de exigência, responsabilidade e de mérito. E para atingirmos tal desiderato, teremos ainda de esperar.
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publicado por politicadevinil às 23:06
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