Domingo, 10 de Junho de 2012

Nova(s) Esquerda(s)

Desde os eventos da Primavera Árabe que temos assistido a uma interessante reflexão no campo das Esquerdas Democráticas e Progressistas, em especial das desligada da partidocracia dominante.

Assim, aproveitando o exemplo emancipador proveniente do Mundo Islâmico, estas esquerda(s) têm procurado desconstruir os processos edificadores dos modelos democráticos ocidentais, criticando e colocando em causa a hegemonia sistémica dos partidos políticos, as características pouco democráticas das suas estruturas internas e os modelos obscuros de recrutamento de pessoal político.

Neste sentido, devemos entender os novos movimentos e plataformas cívicas como parte integrante destas nova(s) esquerda(s), como vanguardas sociais que, visando explorar fórmulas alternativas de participação cívica efectiva e qualitativa fora dos espartilhos partidários, procuram intervir no espaço público e dominar o debate sobre a necessária e premente reforma dos sistemas políticos contemporâneos. E é essencial, a meu ver, que projectos ligados a esta(s) nova(s) esquerda(s) (como o «Manifesto para uma Esquerda Livre» ou o «M12M», para citar alguns) tenham oportunidade de se desenvolverem e de ganhar alicerces na sociedade portuguesa. Não só porque representam a esperança de re-conectar as instituições democráticas e os cidadãos da República, como pretendem alavancar neste processo os fundamentos de novas fórmulas de interacção entre o sistema político e as colectividades que dele dependem e nele intervêm, instaurando novas formas de cidadania vinculativa e proporcionando neste processo respostas para a evidente falência dos modelos partidários contemporâneos e para a constatação da quebra da relação de confiança entre os partidos e a sociedade que dizem representar.

Tal falência e constatação é para mim evidente em virtude dos partidos políticos, hoje dedicados quase em exclusivo à obtenção e manutenção de Poder, promoverem dinâmicas intra-partidárias dominadas e controladas por sindicatos de voto bem organizados e conscientes da sua influência, e que apenas ambicionam a auto-representação institucional; desta forma conservando um modelo que valoriza o cacique, que mantêm as oligarquias (bem) instaladas, e que naturalmente repele a sociedade civil e a academia do seu funcionamento interno, quebrando desta forma o laço entre o partido e a sociedade.

Este modelo, se funcionava no passado, hoje encontra-se sob forte escrutínio por parte de uma sociedade civil informada e que, consciente das qualificações necessárias para a ocupação de lugares de âmbito político, questiona as fórmulas de recrutamento practicadas no seio das entidades responsáveis pelo preenchimento desses mesmos lugares, i.e. os partidos políticos. Mas como os partidos se encontram dominados por quem beneficia deste sistema, não se antecipa que a mudança do mesmo provenha... dos próprios partidos. E daí a necessidade de participar no processo de construção de uma nova ideia de cidadania, hoje a meu ver mais representada nos valores e nos projectos desenvolvidos pela(s) nova(s) esquerda(s) que nos projectos convencionais promovidos pelos partidos.
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José Reis Santos, Historiador

publicado por politicadevinil às 15:22
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