Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

Caminhos

A 6 de Maio de 1940 John Steinbeck era galardoado com o prestigioso prémio Pulitzer pela sua novela As Vinhas da Ira.

Nesta verdadeira obra-prima da literatura norte-americana, Steinbeck segue com minúcia e deliberado detalhe as amarguras e angústias da família Joad que durante a Grande Depressão viajam do Oklahoma à Califórnia procurando no Eldorado Californiano um escape ao desemprego, à miséria e à fome. Neste relato cru sobre as condições sociais na América dos anos 30, levado magistralmente ao cinema por John Ford, Steinbeck reconheceria que fora sua intenção colocar um rótulo de vergonha nos gananciosos anónimos responsáveis pelas causas e efeitos da Grande Depressão, tomando assumidamente o partido das classes desfavorecidas em detrimento da privilegiada oligarquia capitalista dominante.

Por casualidade da História, o próximo dia 6 de Maio - dia da segunda volta das eleições presidenciais francesas - poderá voltar a colocar em foco as ambições de Steinbeck, pois parte do discurso de François Hollande (o candidato socialista) assenta na vontade de responsabilizar os provocadores da actual crise, promovendo em simultâneo um novo pacto social, baseado no combate ao ultra-liberalismo financeiro, na exigência governativa, na Igualdade e na equidade e responsabilidade social.

A se confirmarem estas intensões de voto, o PSF prepara-se para eleger o seu segundo Presidente desde a II Guerra Mundial e consolidar um processo de maturação político e doutrinário que lhe tem permitido uma aproximação à sociedade civil e academia e construir uma alternativa coerente, competitiva e amplamente participada. Este caminho, construído sob a liderança de Martine Aubry, tem permitido ao PSF recredibilizar-se junto das diversas forças sociais francesas e assumir uma certa hegemonia ideológica e intelectual no panorama político e cultural gaulês.

Em vésperas de uma aguardada vitória de Hollande, questiono-me se o PS português tem sabido procurar o seu novo caminho e construir uma nova alternativa que permita - à semelhança do PSF - tornar-se culturalmente hegemónico. E a considerar o desempenho dos socialistas nestes últimos meses, penso que (ainda) não.

Em quase um ano de mandato os contributos da liderança socialista são pouco perceptíveis, e só se entende a política de neutralidade e abstenção seguida pela necessidade de criar um espaço político onde possa, então, construir a tal nova alternativa. Mas a verdade é que já deveriam ter sido dado mais passos nesse sentido. Já deveria ter sido promovida uma análise crítica do consulado Sócrates, identificado as suas marcas positivas e os erros cometidos, denunciado os casos de abuso de poder, e essencialmente apresentado ao Partido (e à sociedade) as matrizes de uma nova dinâmica política capaz de re-conectar o PS com os novos paradigmas da nossa contemporaneidade.

Pode, à semelhança dos Joads, estar o PS ainda com dificuldades em sair do seu árido Oklahoma, mas convém que comece rapidamente a perceber que caminho o levará ao seu desejado Eldorado.

publicado por politicadevinil às 14:32
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