Terça-feira, 13 de Março de 2012

12 de Março

Há um ano o País mobilizou-se à volta de um protesto invulgar. Quatro amigos, jovens, precários, desempregados, convocaram a sociedade civil a vir para a rua manifestar-se contra o “estado geral das coisas”.

Assim, sem mais. Sem agenda política definida, sem marca ideológica concreta, sem apoio de partidos ou centrais sindicais, sem exigências ou reivindicações que mais não fossem obrigar a sociedade lusa a reflectir sobre o País, a sua história recente e perspectivas de futuro. Assim vi o 12 de Março. À distancia, acrescento.

Pensei que Portugal tinha acordado. Não para outro 25 de Abril, como muitos desejaram, ou outro 11 de Março ou 25 de Novembro. Mas para a consciencialização madura da nossa modernidade colectiva. Uma modernidade cosmopolita multigeracional e civicamente activa, construída no quadro europeu, maturada na qualificação generalizada de uma geração com acesso massivo às universidades e aos Erasmus, capacitada pela percepção do seu valor e das qualificações adquiridas e que pedia, apenas, que lhe permitissem viver condignamente, de acordo com os seus sonhos e ambições, dentro dos seus ideais de vida e de felicidade.

Mas o País político não entendeu estas demandas. Preferiu politizar o não-politizável, circunscrever o evento a um ataque ao Governo-Sócrates e reduzir a energia gerada espontaneamente naquela manifestação festiva em ‘soundbites' reivindicativos de uma geração incompreendida, ingrata e à rasca. Não entendeu que na essência se pretendia debater os alicerces dos paradigmas societais que nos impelem sistematicamente para a manutenção de um modelo de vida civicamente ausente e vazio. Porque não há trabalho que acomode as gerações recentemente qualificadas; porque a meritocracia é relegada para segundo plano em detrimento do acesso privilegiado e da cunha; porque grande parte das nossas elites são medíocres e incapazes de reconhecer ou promover o mérito e o valor da competência; porque o sistema partidário está caduco e incapaz de se regenerar.

Um ano depois tem-se procurado inscrever a narrativa do 12 de Março em meros estados de alma pós-modernos. "Pieguice", chamou o primeiro-ministro à indignação. "Emigrem" e "rezem", sugerem outros membros do Executivo, teimando em não entender a natureza do País que governam e em insistir na perpectuação dos pressupostos que levaram, há um ano, milhares e milhares para a rua. Pressupostos hoje agravados por 12 meses de austeridade fascista, de perda de poder de compra e qualidade de vida. Agravados por uma alteração de governo que nada mudou. Piorou. Agravados por o País entender, uma vez mais, que se mantêm a exigência de sacrifícios a todos apenas para que alguns mantenham os seus privilégios.

Há um ano, um par de bons amigos obrigou o País a parar, a pensar em si mesmo e no seu destino colectivo. E fê-lo massivamente. Deixou como legado uma maior capacitação da nossa sociedade civil - hoje mais exigente, reivindicativa e organizada. Mas não conseguiu que o sistema político e partidário acompanhasse este processo de reflexão.

Uma pecha a trabalhar no futuro.

Se ainda quisermos ter futuro. 

publicado por politicadevinil às 17:29
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