Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011

O PS e a Rua

As maciças manifestações de 15 de Outubro dotaram os diversos movimentos de “indignados” de uma visibilidade colectiva incomum de alcance mundial.

De Lisboa a Nova Iorque, do Porto a Madrid, milhões de cidadãos civicamente activos saíram à rua para demonstrar o seu ruidoso protesto contra "o sistema". A uni-los um sentimento de fim de ciclo, de falência sistémica e de anti-oligarquia partidária, consagrado nas principais palavras de ordem: ‘mais e melhor democracia'.

Naturalmente que é necessário matizar esta indignação, entender as particularidades e nuances de cada manifestação e perceber as diferentes motivações de cada caso; sendo muito diferentes os protestos politicamente homogéneos dos socialmente plurais e diversificados. Em todo o caso, julgo ser evidente que existe uma larga camada da população que, bem informada e civicamente capacitada, se insurge contra a (má) gestão da Res Publica e contra a imóvel estrutura político-partidária, incapacitada de dar resposta às demandas do novo milénio. Neste sentido, e pela falta de interlocutores institucionais válidos (leia-se partidos políticos) a indignação colocam-se com facilidade na margem do sistema.

Duas macro-dimensões ajudam a entender a falta de resposta dos partidos ‘mainstream': o consenso europeu construído em torno das grandes forças políticas da União (sociais-democratas, democratas-cristãos e liberais) e a manutenção de um modelo de organização partidária ultrapassado.

O consenso europeu tem impedido de construir uma cultura de intervenção política que, à falta de conflito, remete muita da intervenção partidária para os bastidores das instituições europeias. Significa isto que a oposição de centro-esquerda invés de se apresentar como alternativa política à Comissão Europeia, apresenta-se aos olhos da opinião pública como co-responsável pelo actual conjunto de políticas de austeridade, como foi bem evidente no caso português.

Por outro lado, a falta de adaptação às novas condicionantes sociais e políticas do milénio tem incapacitado muitos partidos de esquerda de representar as novas dinâmicas emergentes, ocupados que estão em promover oligarquias internas institucionalmente auto-representativas e de exclusiva socialização política intra-partidária, afastando totalmente das suas instituições as novas formas de cidadania activa.

Ora parece-me que cabe à esquerda iniciar um crítico processo reflexivo que tome em consideração estes pontos. Neste sentido, penso que a actual direcção do PS pode estar no bom caminho ao considerar o chumbo do OE (e o rompimento do acordo com a Troika) e prometer uma importante revisão estatutária que visa modernizar as suas estruturas e reactivar a ligação com a sociedade. Resta saber se o PS será capaz de enquadrar o seu seio estas novas dinâmicas sociais, construir alternativas programáticas aos actuais paradigmas de governação e promover um novo conjunto de actores, mais próximos das pessoas e da rua e provenientes de novas formas de socialização política.

publicado por politicadevinil às 14:28
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