Quarta-feira, 27 de Julho de 2011

Extremismo europeu

Procurar explicar o massacre de Utoeya e os atentados de Oslo à luz de um acto isolado perpetrado por um louco alucinado é um erro e um simplismo que esconde as causas mais profundas da barbárie ocorrida.

Sabe-se hoje que Anders Breivik, o autor destes crimes hediondos, é um conservador de direita, fanático cristão, com ligações à extrema direita (Norueguesa e não só), que planeou os ataques com um preocupante cuidado cirúrgico com a intenção de dizimar os responsáveis políticos pelo clima de tolerância, liberdade e inclusão social vividos na sociedade norueguesa.

No seu discurso, Breivik identificou o trabalhismo Norueguês como o principal responsável pela construção da tal "sociedade progressista", afirmando ainda que importava "ajudar os irmãos franceses, ingleses, alemães, escandinavos a derrotar o marxismo cultural e o multiculturalismo existente na Europa cosmopolita". E tem razão, quando refere que a Europa hoje, especialmente a Europa cosmopolita, educada, urbanizada, aceita o multiculturalismo como essência do próprio facto de ser Europeu. É a mesma Europa que se revê nos valores da liberdade, da tolerância e pluralidade política; e que respeita as regras da democracia liberal e os valores essenciais da dignidade humana. E também é verdade que tem sido através do discurso socialista/social-democrata/trabalhista europeu que estes valores tem sido defendidos e consagrados em políticas públicas.

Assim, o massacre deste fim-de-semana foi um ataque à concepção liberal das democracias modernas e aos fundamentos do projecto europeu, e por isso devem servir para uma profunda reflexão por parte dos actores políticos que, directa e indirectamente, contribuíram para validação de tal discurso de ódio e intolerância. Refiro-me nomeadamente à direita ‘mainstream' e conservadora que tem dado cobertura a leituras maniqueístas que sistematicamente individualizam e discriminam amplos sectores da sociedade (como os emigrantes, população LGBT, mulheres, etnias minoritárias, etc). Basta, aliás, recordar as palavras da Chanceler Alemã ("o multiculturalismo europeu falhou"), rapidamente subscritas por Cameron ou Sarkozy, ou apreciar as posições de alguma direita em relação a qualquer proposta "progressista" que procure combater a discriminação e falta de inclusão de certos grupos sociais para confirmar esta afirmação.

Não procuro, naturalmente, acusar esta direita de qualquer responsabilidade directa nos eventos do fim-de-semana, mas não posso deixar de afirmar que têm contribuído, ao nível do discurso e das práticas políticas, para o caldo cultural de intolerância que hoje contamina a Europa. E duas razões ajudam a explicar este comportamento: um eleitoralismo cínico que aproveita o descontentamento social face à crise e uma visão retrógrada e conservadora do mundo e das liberdades individuais.

Neste sentido, torna-se urgente construir soluções viáveis, ao nível europeu, para a actual crise económica e financeira que, com as suas consequências sociais, alimenta e legitima estes discursos extremistas. E esta resposta, como bem referiu Jens Stoltenberg, tem de consagrar mais democracia, mais pluralismo e mais progressismo social. 

publicado por politicadevinil às 17:04
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