Quinta-feira, 9 de Junho de 2011

Dias felizes

Os resultados eleitorais não mentem, como o velho teste do algodão. E no domingo foi evidente que o eleitorado português quis substituir José Sócrates do cargo de primeiro-ministro.

Depois, procurou não proporcionar uma maioria absoluta monopartidária; e, consequentemente consagrar um governo de coligação.

Claro que estas foram umas eleições invulgares. Primeiro na sua origem (coligação negativa que derruba o governo no parlamento), e depois pela característica singular de parte dos programas de governo terem sido importados, em virtude da aceitação do acordo da Troika. Isto significa que o próximo governo, em muitos sectores, pouco mais será que um governo de gestão, obrigado a implementar medidas económicas e financeiras desenhadas fora do espaço nacional.

Esta característica internacionalista acaba por ter uma particularidade interessante de explorar, e que representa o estado da actual integração europeia. São a prova de que vivemos num sistema de soberania híbrida e partilhada, que retirou há muito aos países membros da União a capacidade de gestão autónoma dos seus recursos políticos e implementou um sistema de partilha entre as instituições nacionais e europeias.

Não vejo estas características como nefastas, acrescento, antes pelo contrário. A União Europeia é um projecto colectivo que, bem aproveitado e bem gerido, é benéfico para os Estados-membros e para os cidadãos. Temos ainda, é verdade, de nos habituarmos ao facto de vivemos num sistema político que tem na dimensão europeia o seu último patamar; e que neste esquema o governo de Portugal em relação à Europa se assemelha à governação de uma autarquia em relação ao poder central.

Julgo que Passos Coelho sabe que estas são as regras do jogo. Aliás, a sua família política europeia tem sabido muito bem gerir a crise internacional e, com o apoio da Comissão Barroso, dominar o discurso europeu (com uma mescla de populismo, liberalismo e nacionalismo). O problema é que a União não tem sido bem dirigida nem gerida. As soluções propostas para a crise não funcionam (como na Grécia), e nada indica que funcionarão em Portugal.

Mas Portugal, com os resultados de domingo, acompanha finalmente o ritmo europeu, que remete o socialismo democrático para a oposição e instala a direita no governo. Resta saber se correremos o risco de, como na Hungria, assistirmos à tomada do aparelho do Estado por parte de uma elite autocrática e nacionalista que recentemente produziu um golpe de Estado constitucional. Mas, como o domínio da direita não é absoluto será decisivo assistir à evolução interna no seio do Partido Socialista, que terá de saber potenciar um processo intenso de reflexão e (re)posicionar-se politicamente.

Em todo o caso, e contrariamente ao primeiro-ministro demissionário, não nos esperarão certamente dias felizes nos próximos meses e anos. Resta esperar que saibamos aproveitar as novas oportunidades proporcionadas domingo: PSD e CDS no governo, PS na oposição.

publicado por politicadevinil às 17:19
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