Quinta-feira, 26 de Abril de 2012
Parir Abril

Prestes a completar 38 anos de idade, o 25 de Abril, depois de uma infância feliz e uma adolescência intensa, depois de terminar um curso numa universidade pública e de ter entrado no mercado de trabalho...

Prestes a completar 38 anos de idade, o 25 de Abril, depois de uma infância feliz e uma adolescência intensa, depois de terminar um curso numa universidade pública e de ter entrado no mercado de trabalho - primeiro como estagiário, depois com contracto a prazo -, depois de se ter apaixonado, casado e parido, depois de se ter emancipado e comprado casa, depois de se ter endividado e ter acreditado que teria melhor qualidade de vida que os seus pais, hoje está desempregado e divorciado, tem custódia conjunta da criança, dívidas à Segurança Social, mestrado acabado e doutoramento incompleto, pensa sair do País onde sempre viveu e arriscar fortuna em Luanda, Madrid ou Rio de Janeiro.

Mas enquanto pensa e repensa no que fazer à vida, agora interrompida, regressou envergonhado à cama de solteiro que mantém em casa dos pais, onde prepara os CV, navega na net e ajuda nas tarefas domésticas. Amanhã vai sair à rua e descer a Liberdade. Não sabe se será alvo da "tolerância zero" prometida pela nova PIDE, e se regressará a casa - a casa dos seus país - com novas feridas para sarar. Mas não se importa. Importa-lhe estar com as novas e velhas gerações, indignar-se com o estado de precariedade geral do seu País, exigir mais a quem o governa e representa, e partilhar o feriado de amanhã - enquanto houver feriado amanhã.

Quer chegar ao Marquês via Parque Eduardo VII, deparar-se com a esperada massa humana com a vista privilegiada do topo da colina do monarca inglês, resguardado pela bandeira da Pátria e pelo fálico símbolo da revolução. Aquele que nos remete para todos os símbolos másculos da nossa revolução e que simboliza - como conceito - a pujança e vigor de um povo unido em busca do seu futuro.

Depois quer descer a Avenida, baptizada de Liberdade, mergulhar incógnito na multidão anónima e diluir-se na tranquilidade expressiva de quem se congrega em torno da partilha de uma memória emancipadora. Esquecer-se do fado triste diariamente tatuado no seu pardo quotidiano, da melancólica sina que hoje partilha com quem consigo marcha, esquecer-se da falta de futuro que consome a sua geração, das ‘troikas' domésticas e importadas, do País permanentemente incumprido e adiado. E recordar-se de todos sonhos que Abril lhe possibilitou quando foi fecundado por um povo revoltado e motivado, ansioso de esperança e de operar a transformação de uma nação submissa e submersa por 48 anos de ditadura estéril numa sociedade tolerante, equitativa e progressista.

Mas talvez uma fertilização insuficientemente feminina tenha adiado a conclusão de uma gravidez que há quase quatro décadas matura na sociedade portuguesa, que acumula transformações que injectam a percepção de mudança e progresso mas mantém o privilégio oligárquico construído na transição e na estabilização democrática. Não é esse o Abril que queremos parir. Talvez melhor esperar, arriscar a fortuna em Luanda, Madrid ou Rio de Janeiro, mas também Lisboa, Porto ou Bragança. Não desistir. Descer a Avenida a cada ano, antes que se pense em transitar o feriado para Novembro... 



publicado por politicadevinil às 13:31
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Quarta-feira, 11 de Abril de 2012
Caminhos

A 6 de Maio de 1940 John Steinbeck era galardoado com o prestigioso prémio Pulitzer pela sua novela As Vinhas da Ira.

Nesta verdadeira obra-prima da literatura norte-americana, Steinbeck segue com minúcia e deliberado detalhe as amarguras e angústias da família Joad que durante a Grande Depressão viajam do Oklahoma à Califórnia procurando no Eldorado Californiano um escape ao desemprego, à miséria e à fome. Neste relato cru sobre as condições sociais na América dos anos 30, levado magistralmente ao cinema por John Ford, Steinbeck reconheceria que fora sua intenção colocar um rótulo de vergonha nos gananciosos anónimos responsáveis pelas causas e efeitos da Grande Depressão, tomando assumidamente o partido das classes desfavorecidas em detrimento da privilegiada oligarquia capitalista dominante.

Por casualidade da História, o próximo dia 6 de Maio - dia da segunda volta das eleições presidenciais francesas - poderá voltar a colocar em foco as ambições de Steinbeck, pois parte do discurso de François Hollande (o candidato socialista) assenta na vontade de responsabilizar os provocadores da actual crise, promovendo em simultâneo um novo pacto social, baseado no combate ao ultra-liberalismo financeiro, na exigência governativa, na Igualdade e na equidade e responsabilidade social.

A se confirmarem estas intensões de voto, o PSF prepara-se para eleger o seu segundo Presidente desde a II Guerra Mundial e consolidar um processo de maturação político e doutrinário que lhe tem permitido uma aproximação à sociedade civil e academia e construir uma alternativa coerente, competitiva e amplamente participada. Este caminho, construído sob a liderança de Martine Aubry, tem permitido ao PSF recredibilizar-se junto das diversas forças sociais francesas e assumir uma certa hegemonia ideológica e intelectual no panorama político e cultural gaulês.

Em vésperas de uma aguardada vitória de Hollande, questiono-me se o PS português tem sabido procurar o seu novo caminho e construir uma nova alternativa que permita - à semelhança do PSF - tornar-se culturalmente hegemónico. E a considerar o desempenho dos socialistas nestes últimos meses, penso que (ainda) não.

Em quase um ano de mandato os contributos da liderança socialista são pouco perceptíveis, e só se entende a política de neutralidade e abstenção seguida pela necessidade de criar um espaço político onde possa, então, construir a tal nova alternativa. Mas a verdade é que já deveriam ter sido dado mais passos nesse sentido. Já deveria ter sido promovida uma análise crítica do consulado Sócrates, identificado as suas marcas positivas e os erros cometidos, denunciado os casos de abuso de poder, e essencialmente apresentado ao Partido (e à sociedade) as matrizes de uma nova dinâmica política capaz de re-conectar o PS com os novos paradigmas da nossa contemporaneidade.

Pode, à semelhança dos Joads, estar o PS ainda com dificuldades em sair do seu árido Oklahoma, mas convém que comece rapidamente a perceber que caminho o levará ao seu desejado Eldorado.



publicado por politicadevinil às 14:32
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Quarta-feira, 28 de Março de 2012
Portugal à bastonada

Recentemente, um colega – Diego Palacios Cerezales – defendeu e publicou uma interessantíssima tese de doutoramento sobre as relações da população portuguesa com o Estado, através da análise da História das políticas de ordem pública do Liberalismo à Democracia.

No livro em causa (Portugal à Coronhada. Protesto popular e ordem pública nos séculos XIX e XX, Tinta da China, 2011) são desmistificados os brandos costumes do povo português que, contrariamente à percepção construída - nomeadamente durante o Estado Novo - tradicionalmente sempre se indignou contra o que entendia ser o abuso do Estado.

Contrariamente ao ocorrido em países de elevada prosperidade, onde muitas das causas da indignação popular assentavam em demandas de cidadania (acesso ao voto e às decisões políticas por parte de franjas da população), boa parte da conflictualidade popular portuguesa assentava em razões ligadas à carestia, à fome e à imposição da administração do Estado (cobrança de impostos). E é estimulante verificar que desde o nosso liberalismo assistimos à aliança de formas tradicionais e modernas de expressão dessa mesma indignação. Assim, às "Marias da Fonte" convocadas a rebate dos sinos, às interpelações junto das elites locais para intercederem junto do poder central, ao saque de edifícios e arquivos públicos adicionaram-se ao longo do século XIX novas formas de mobilização popular, como recolha de assinaturas e organização de petições, comícios, concentrações, e mais tarde, a promoção de greves.

Recordei-me deste nosso historial quando, deparado com os brutais eventos da última semana, verifiquei que a nossa polícia de segurança pública havia regressado ao uso de tácticas de dispersão coercivas totalmente desadaptadas às características dos modernos Estados de Direito só explicadas por se sentir resguardada - directa e indirectamente - pelo actual governo, que assim tacitamente apoiou a brutalidade aplicada a manifestantes anónimos, jornalistas e transeuntes, em pleno centro da cidade de Lisboa. E felizmente que há muito trocaram as espingardas pelo bastões, senão tal mole teria sido corrida à coronhada, e não à bastonada. O País (e o mundo) tiveram assim a oportunidade de assistir a um retrocesso inaceitável a formas de violência policial mais condizentes com outras fórmulas de poder político, que não a Democracia.

Mas não se julgue que o monopólio do uso gratuito da violência tem sido exclusivo da polícia púbica. Segundo muitos relatos, também os homens fardados da CGTP aplicaram força bruta para controlar alguns manifestantes que consideraram desalinhados, o que nos remete para uma reflexão acerca do papel dos sindicatos no actual panorama político-social, a sua percepção de domínio e controlo totalizante da indignação popular e dos movimentos sociais e, pior, a sua intolerância perante quem não alinhe com a sua linha de conduta.

E estávamos perante uma manifestação de pequenas dimensões, pacífica. O que acontecerá, questiono-me, quando o povo português se recordar de tocar os sinos a rebate? Regressará a coronhada?



publicado por politicadevinil às 14:30
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Terça-feira, 13 de Março de 2012
12 de Março

Há um ano o País mobilizou-se à volta de um protesto invulgar. Quatro amigos, jovens, precários, desempregados, convocaram a sociedade civil a vir para a rua manifestar-se contra o “estado geral das coisas”.

Assim, sem mais. Sem agenda política definida, sem marca ideológica concreta, sem apoio de partidos ou centrais sindicais, sem exigências ou reivindicações que mais não fossem obrigar a sociedade lusa a reflectir sobre o País, a sua história recente e perspectivas de futuro. Assim vi o 12 de Março. À distancia, acrescento.

Pensei que Portugal tinha acordado. Não para outro 25 de Abril, como muitos desejaram, ou outro 11 de Março ou 25 de Novembro. Mas para a consciencialização madura da nossa modernidade colectiva. Uma modernidade cosmopolita multigeracional e civicamente activa, construída no quadro europeu, maturada na qualificação generalizada de uma geração com acesso massivo às universidades e aos Erasmus, capacitada pela percepção do seu valor e das qualificações adquiridas e que pedia, apenas, que lhe permitissem viver condignamente, de acordo com os seus sonhos e ambições, dentro dos seus ideais de vida e de felicidade.

Mas o País político não entendeu estas demandas. Preferiu politizar o não-politizável, circunscrever o evento a um ataque ao Governo-Sócrates e reduzir a energia gerada espontaneamente naquela manifestação festiva em ‘soundbites' reivindicativos de uma geração incompreendida, ingrata e à rasca. Não entendeu que na essência se pretendia debater os alicerces dos paradigmas societais que nos impelem sistematicamente para a manutenção de um modelo de vida civicamente ausente e vazio. Porque não há trabalho que acomode as gerações recentemente qualificadas; porque a meritocracia é relegada para segundo plano em detrimento do acesso privilegiado e da cunha; porque grande parte das nossas elites são medíocres e incapazes de reconhecer ou promover o mérito e o valor da competência; porque o sistema partidário está caduco e incapaz de se regenerar.

Um ano depois tem-se procurado inscrever a narrativa do 12 de Março em meros estados de alma pós-modernos. "Pieguice", chamou o primeiro-ministro à indignação. "Emigrem" e "rezem", sugerem outros membros do Executivo, teimando em não entender a natureza do País que governam e em insistir na perpectuação dos pressupostos que levaram, há um ano, milhares e milhares para a rua. Pressupostos hoje agravados por 12 meses de austeridade fascista, de perda de poder de compra e qualidade de vida. Agravados por uma alteração de governo que nada mudou. Piorou. Agravados por o País entender, uma vez mais, que se mantêm a exigência de sacrifícios a todos apenas para que alguns mantenham os seus privilégios.

Há um ano, um par de bons amigos obrigou o País a parar, a pensar em si mesmo e no seu destino colectivo. E fê-lo massivamente. Deixou como legado uma maior capacitação da nossa sociedade civil - hoje mais exigente, reivindicativa e organizada. Mas não conseguiu que o sistema político e partidário acompanhasse este processo de reflexão.

Uma pecha a trabalhar no futuro.

Se ainda quisermos ter futuro. 



publicado por politicadevinil às 17:29
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Portugaliser

Portugal encontra-se numa situação financeira e política caótica. Julga-se que a solução para os problemas do País passam pelo auxilio externo, e para o efeito, solicita-se um avolumado empréstimo à comunidade internacional.

Primeiro nas principais praças financeiras - que rejeitam o resgate -, depois junto das organizações internacionais; que acedem, mas impondo condições: equilibro orçamental, implementação de um conjunto de medidas de austeridade e a permissão da presença de equipas de peritos internacionais no país para verificação da implementação de tais medidas. A reputação internacional de "lixo" é a razão para tais elevadas exigências. E revelador de tal má fama é o cunho em França do verbo "Portugaliser", que significa imprevisibilidade total, caos generalizado, virar tudo do avesso.

O governo português rejeita tais exigências, advogando que o comprimento das mesmas implicaria uma inaceitável perda de soberania. Demite-se o ministro das Finanças, Sinel de Cordes, e é novamente convidado para a pasta um notório professor de Finanças da Universidade de Coimbra, paladino de uma revolução moral do carácter do povo português: António de Oliveira Salazar. Estamos em 1928, e não como o leitor poderia julgar, em 2011 ou 2012.

Apesar da tentadora transposição para a actualidade de eventos passados, do divertimento académico da História contra-factual, a realidade é que História não se repete. Ou repetir-se-á? É que a julgar pela dispersão de discursos populistas, adventistas e nacionalistas que pululam o espaço político europeu (especialmente a Leste), poderíamos julgar estar perante um filme já visto. E se nada for feito para combater os salvadores da Pátria que inevitavelmente promovem - como o nosso Salazar - propostas socialmente retrógradas, moralmente conservadoras e civicamente discriminatórias, caminhamos a passos largos para uma infeliz "salazarização" europeia. Suprema ironia, quando o nosso pequeno ditador sempre foi homem de pequenos horizontes.

Em todo o caso questiono-me se Portugal se mantêm imune a tais fenómenos e se, mais de oito décadas depois, conservamos as características da ingovernabilidade que forjaram tal verbo francês e que ciclicamente nos empurram para novos Sebastiões, coimbrões ou não.

Julgo que as características do nosso sistema político democrático têm conseguido amenizar o advento de projectos ultranacionalistas alternativos, ao mesmo tempo que temos sabido concentrar a proclamação de novos Sebastiões nas bancadas dos relvados, e não nas tribunas da política, chamando-lhes hoje Ronaldos como ontem lhes chamávamos Eusébios. Mas infelizmente não consigo deixar de me recordar das célebres palavras de Almada Negreiros, esperando infinitamente pela consagração pública das nossas qualidades colectiva (que temos).



publicado por politicadevinil às 17:27
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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012
O artista

No actual circuito de prémios da industria cinematográfica um filme têm-se destacado: o Artista.

É um filme anacrónico, mudo e integralmente a preto e branco, que retracta a traumática transição dos ‘silent movies' para os ‘talkies' através do declínio de uma estrela da velha guarda - renitente em se adaptar à nova realidade - e da ascensão de uma nova vedeta - símbolo imediato da nova vaga.

Hoje, munidos de tecnologias como a cor, a alta-definição ou as 3D, não deixa de ser curioso verificar como a contemporaneidade política teima em manter no activo uma panóplia de artistas ancorados a visões passadistas e desligadas da nova realidades mundial.

E nem me refiro exclusivamente aos políticos da nossa praça, meros figurantes obedientes sem direito a fala ou a identidade governativa. Refiro-me aos que, hoje por imbecilidade e teimosia dogmática, teimam em perpectuar a insistência na implementação de mais e mais pacotes de austeridade no espaço europeu, eternizando e agudizando a crise social, cegos que estão na perseverança de modelos datados de duas cores.

Neste cenário, a cor tem vindo das chamas que percorrem a Europa desesperada e sem futuro. A Europa desempregada, atacada nos salários, nos sonhos e na qualidade de vida. A Europa pobre, vagabunda e triste. Sem força ou esperança. A Europa que não entende os porquês da persistência da crise, da falta de alternativa política viável ou da subjeção de um continente à vontade de uma senhora apenas. Essa Europa que se esconde com vergonha dos cobradores de paletó e penhora as suas jóias e pechisbeques a senhores com fato da 5ª Avenida.

Perante este pranto colectivo, os artistas da revista-pátria lusitana limitam-se a percorrer os palcos despidos do nosso horizonte, cantando sem rima promessas rompidas em cada passo trocado, rezando a todos os deuses para que não nos tomem por gregos ou por troianos, sem se darem conta que já somos, há muito, gregos e troianos, arregimentando neste caminho apenas os fieis, os tontos e os que - bem conectados - ainda tiram partido do sistema, mesmo falido como está.

E enquanto isto a "nova vaga" teima em se apresentar, refém que se encontra da impossibilidade sistémica de ser significativa, se não intervir no espaço alemão, francês ou em Bruxelas; razão evidente mas que não justifica a falta de alternativas parcelares nos países periféricos europeus, Portugal incluído. E esta nova solução terá de provir de uma nova reflexão à esquerda; uma reflexão madura, alargada e social e politicamente consistente.

O problema é que muita desta esquerda vive também o trauma da passagem aos ‘talkies', repleta que está de artistas de outras eras. Terá agora de saber construir o enquadramento que simultaneamente filtre os talentos válidos de outrora e permita o advento de novos actores, já desligados das velhas rotinas. Em França, espaço de intervenção real, Hollande tem procurado um novo caminho, de ruptura equilibrada e de transformação matricial.

Em Portugal, é urgente que Seguro liberte o PS do acordo da ‘troika' e siga estes passos, para que não corra o risco de se tornar, como o nosso primeiro-artista, em personagem muda.



publicado por politicadevinil às 13:55
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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012
Filosofia caduca

Um dos privilégios de trabalhar em História Contemporânea é sermos confrontados com dilemas do presente e, consequentemente, ter a oportunidade de mergulhar nos debates políticos, filosóficos e intelectuais decorrentes.

Em concreto interessam-me as reflexões sistémicas. Isto porque somos confrontados com a incapacidade dos sistema políticos gerirem o Bem Comum, promoverem uma sociedade mais equitativa e justa e acabarem com o abuso do Estado em prol de alguns poucos, obscuramente selecionados. Estes são os dilemas do nosso tempo, como o eram há mais de 100 anos. Com a agravante de se terem agudizado no quadro da crise vigente e de serem hoje evidentes para o cidadão comum (bem) informado.

Pior, num momento em que se esperava maturação democrática e um consenso social alargado em torno de um futuro colectivo partilhado - face à crise - temos assistido à total incapacidade da nossa elite política em "dar conta do recado", interessada apenas em salvaguardar os (seus) privilégios adquiridos. Tal constatação, partilhada entre os partidos no arco governativo, recorda-me um comentário de Antero de Quental quando, insurgindo-se contra o rotativismo parlamentar estéril do século XIX, referia que "os partidos perdem a noção da realidade e, enquanto o mundo está em constante transformação, eles repetem maquinalmente as teses habituais de uma filosofia caduca, que nem sequer entendem". Hoje questiono-me se, perante as transformações do nosso tempo, não estarão os nossos políticos a repetiram fórmulas gastas, obsoletas, e - mais grave - a insistirem na demonstração da falência do actual sistema democrático-parlamentar.

Este último ponto apresenta, a meu ver, uma gravidade absoluta, pois decorre da sua interpretação a apresentação de alternativas populistas autoritárias que, no decurso da História, possibilitaram o advento dos fascismos, comunismos e outros totalitarismos e, validaram recentemente, por exemplo, o golpe de Estado Constitucional húngaro.

Não pretendo com isto afirmar que Portugal esteja perante tal grave situação (como no passado), mas apenas alertar que a constante falta de qualidade da nossa classe político-partidária pode originar a falência do sistema como o conhecemos. Não podemos continuar a aceitar a imortalização das teses habituais de uma filosofia caduca e mal-entendida, apresentadas por actores clonados dos nossos piores exemplos. É imperativo que surjam novas alternativas, protagonistas e propostas. É necessária mais acção, dentro do quadro democrático-institucional vigente, mais associativismo, mais sindicalismo, mais indignação, mais alternativa partidária consistente. É que, em boa verdade, não é necessário refundar ou romper com o sistema. Até porque o mesmo pode ser (bem) gerido se soubermos promover e apoiar uma elite política capaz e altruísta. O que até ao momento não tem sido possível.



publicado por politicadevinil às 11:22
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Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012
Quem é o Maçom?

Justo entrados no último ano do antigo calendário Maia, parece que o país público decidiu inventar um novo ‘reality show’ que promete desvendar quem estará por detrás de todos os males da República: “Quem é o Maçom?”

Este novo programa de entretenimento variado, disponível em diversos canais noticiosos, não prima pelo ineditismo: uma anterior versão, ainda a preto-e-branco e com som distorcido, foi inaugurada faz esta semana 77 anos em plena sede de Parlamento (na altura Assembleia Nacional). Aí, na primeira sessão legislativa da primeira legislatura de um Estado que se intitulava de Novo, coube a honra de ser o projecto de Lei n.º 2 exclusivamente dedicado à extinção - legal - da Maçonaria em Portugal.

Na leitura deste senhores, a maçonaria estaria na origem da decadência moral e política da Nação, sendo singularmente responsável pela anarquia reinante em terras lusas. Na realidade tinham razão quando identificavam a Maçonaria como uma das principais forças de combate à Monarquia Constitucional e à casa Real e impulsionadora da República em Portugal, como já havia sido motora da luta contra o absolutismo, o obscurantismo católico e o ultramontismo bacoco (já a falência da República tem causas bem mais complexas que a presença, activa e pública, de maçons na vida política). Durante a República, recordo, foram ideais maçons que estiveram na promoção da educação pública, do progresso social e do secularismo.

Comparações, ironias e ‘blagues' à parte, quero acreditar que o Portugal de 2012 é bastante distinto do de 1935, e que a recente perseguição mediática à maçonaria revela - uma vez mais - apenas a incapacidade da opinião pública e publicada em distinguir o superficial do essencial e saber apresentar, com claridade, as complexas causas do actual estado de calamidade nacional, em especial as nebulosas relações entre o poder económico e político, a natureza e qualidade do recrutamento para exercício de cargos públicos e a incapacidade regeneradora dos partidos políticos. Todas razões há muito identificadas, sistematicamente alvo de promessas eleitorais e de infrutíferas tentativas reformistas (neste tema, não tinha Passos Coelho prometido ‘no jobs for the boys'?).

Naturalmente que a Maçonaria não está livre de sofrer dos mesmos problemas do país, de ser objecto de usurpação e albergue de personagens de mau carácter e má rês. Como não estão a Opus Dei, os Jesuítas ou os Maristas. Mais, segundo a tradição e as regras da maçonaria, gentes de tal espécie não têm lugar em tal associação e deveriam ou ser vetadas à entrada ou expulsas, como clamam diversas altas instâncias maçónicas. O problema está na leviana promiscuidade entre os pilares económicos e partidários do nosso sistema político; o que, aliado à falta de transparência endémica, ao clima de impunidade pública e à presença activa e conspirativa (para uso próprio) de muitos chicos espertos, tem permitido demasiados exemplos de abuso de poder e de usufruto indevido do Estado.

A resolução destas incontestáveis constatações deve ser, a meu ver, um dos centros das nossas preocupações enquanto actores activos na vida pública nacional e não, como é evidente, de procurar o Maçom, o Opus Dei, o Marista ou Escoteiro em cada um de nós.



publicado por politicadevinil às 15:24
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Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011
The Left (or the Socialists / Social-democrat parties) and the Streets

The massive demonstrations of 15 October endowed the various indignados movements with an unusual collective worldwide visibility. From Lisbon to New York, from London to Madrid, millions of civically active citizens took to the streets to demonstrate their noisy protest against 'the system'. Biding them was a sense of systemic failure and anti-party oligarchy feeling, enshrined in the main slogan: 'more and better democracy now.'

 

 

Of course it is necessary to modulate this indignation, understand the nuances and particularities of each event, and understand the different motivations of each case, as homogeneous political protests are very different from  plural and socially diverse ones.

In any case, I think it is clear that there is a large segment of the well informed and civically engaged population participating in a rebellion against the miss-management of the Res Publica and against the current political party structures, as they are unable to meet the demands of the new millennium. As such, and due to the lack of valid institutional partners (read: political parties), these movements set themselves easily on the edge of the system.

 

 

Two macro-dimensions help to understand the lack of response from mainstream parties: the European consensus built around the major political forces of the Union (Social Democrats, Christian Democrats and Liberals) and the maintenance of an outdated model of party organization.

 

The European consensus and the absence of political conflict enables a culture of political intervention at the European level, a situation aggravated by the tradition of backstage party negotiation within the closed frame of European institutions. This means that the center-left opposition, instead of presenting themselves as a political alternative to the current European Commission, is seen in the eyes of the public as co-responsible for the current European political program as set by the right wing, conservative-liberal European Commission.

 

On the other hand, the lack of adaptation to the new social and political conditions of the millennium has incapacitated many left-wing parties to represent the emerging dynamics. Instead, most traditional, mainstream Socialist and Social-democratic parties are busy promoting internal self-representative institutionalized oligarchies exclusively socialized in their intra-party structures, hence miles away from the new forms of active citizenship.

 

Now it seems to me urgent for Socialists and Social-democratic parties to start a critical reflective process that takes into account these points. In this sense, I think major statutory revisions are needed to modernize party facilities and reactivate their connection with civil society. These reforms should bosom the new social dynamics, provide an ample space to create programmatic alternatives to existing governance paradigms and promote a new set of actors and ways of political socialization, closer to the people and closer to the street.  



publicado por politicadevinil às 14:06
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The reform of the (European) Republic

It is for me clear and evident that the present European Commission is not providing effective answers to the current economic and social crises, and that it is imperative to seek a coherent and progressive left-wing alternative.

                                               

This political alternative needs to be built within a wide frame of progressive parties and political platforms, consider the claims of the present indignados and occupy movements, and emerge with a consistent program to be framed into a political alternative by 2014, in time for the next European election.

 

Meanwhile it is important, among other factors, that Europe’s Indignados movements shape a cohesive and organized discourse, because the current national initiatives have indirectly contributed to the legitimacy of nationalist narratives that dominate the European cultural discourse today. This lack of a European frame happens because parties and social movements still condition their political reading on endogenous factors - intra-national – that are usually related to the impact of the crisis and the lack of political solutions in their own countries; been therefore more convenient to organize themselves around national narratives. But in reality the conditioning factors that drive today’s European social unrest cannot be considered exclusively local. They have at least a European-wide scope. And the reasons behind the millions of Europeans in the streets are, with few cultural distinctions, shared between Greeks, Irish, Italians, French, Portuguese and British, to name a few.

 

Now, the lack of a consolidated European public opinion, the absence of a functional European Party System, and the ‘organic nature’ of many of these social movements (sometimes more fiction than reality) helps to explain the lack of integrated answers and the much needed construction of a coherent, shared discourse that could provide a socially valid and politically engaged alternative. And, in this sense, it is urgent to solidify the relationships between these three dimensions, so that the necessary intra-systemic change can occur within a legitimate reformist framework.

 

For various reasons we have not managed to build a strong European public opinion or public sphere. There are no truly effective European newspapers or television channels and the closest channels we have to a European civic space are our personal contacts gathered around social networks (eg Facebook), which are clearly insufficient to shape a shared, collective European conscience. As such, we are incapable of producing a collective narrative bounding the different shapes of public indignation.

 

 

On the other hand, the organic tradition of many social movements, and its ideological backgrounds, had lead to the refuse of any institutional normality and to the inability to create effective links with other institutional partners. This pseudo-post-anarchist tradition sees the current European party landscape without left-right distinction, acknowledging no validity in any of the actual institutional structures, situation that leads to an institutional stalemate with the consolidated mainstream political system, namely with left-wing parties (the political space where a common ground could be easily explored).

 

Changing the current state of affairs of the two previous dimensions seems to me too demanding, as we are far from establishing the necessary common ground to reunite the scattered European progressive forces or achieve a European public sphere. The responsibility to act within the framework of the Union and provide answers to the new social and civic public claims should fall on the institutionally embodied parties, particularly left-wing European political parties. But the paradox is that today these party structures are more a part of the problem than the solution, and motivate - often rightly - distrust from an engaged civil society.

 

So, we need to know how to solve this dilemma in order to seek the reform of the European Republic. And the responsibility for this should lay, I repeat, on the European left-wing parties. They are politically capable, skilled and resourceful, and should present themselves as the connecting key that could bind ‘The Street’ and the ‘The Institutions’ together, within a reformist, intra-institutional frame.

Not doing so could mean the end of the European project as we know it and a return to a closed, outdated, and nationalist Europe. Basically, a return to the nineteenth century.



publicado por politicadevinil às 14:05
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